Quem sou eu

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Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.

domingo, 15 de abril de 2018

Corredores



Teste para cardíaco
Abriu-se a Caixa de Pandora de sensações, de coisas que há tempos estavam emoldurados na parede da minha sala
Um parto foi iniciado
Dizem que o que os olhos não veem o coração não sente
Sábio ditado!
Quer saber o que os olhos do coração veem sem querer?
Quase ninguém quer...
Posso tentar traduzir
Um suspiro por falta de fôlego, uma vergonha sem tamanho, querendo ser uma ema e enfiar a cara na areia
Como se não existisse, um grão minúsculo, imperfeito, humano demais, sensível ao extremo
Nossa, que absurdo de sentimentos
Quer sumir, cavar o chão, desaparecer
Quer chorar, avançar no pescoço, esmorecer
Raiva, dor, agonia, taquicardia, mão gelada querendo uma cara para bater
Mas bater em quem? Porque? Ninguém merece isso...
Esse coração só quer parar de doer, aqui, na seção de frutas desse supermercado
Quer acreditar de novo, mas custa tanto e as vezes tão pouco
Não faz isso comigo coração, não faz isso com você
Não apareça assim feliz, diante dos meus olhos, sem estar comigo ao seu lado
O coração reclama e quem paga o pato sou eu
Aqui entre peixes mortos e abobrinhas eu rezo para desaparecer
Coração, como te explico isso? 
Tem que aquietar, tentar explicar o inexplicável, acalmar
Eu só tinha que carregar um carrinho no meio desse supermercado francês, fazer minha parte e ir embora
Basta uma palavra errada, uma desculpa esfarrapada, uma verdade maculada, para voltar a sofrer
É mesmo uma arte o amor, onde se quer tudo e não se pode exigir nada

Roberta Moura


Astro Rei



É você quem manda
Sempre mandou
Coordenou tudo ao seu tempo
Desenhou meu corpo ao seu jeito
Você é minha fotografia mais bonita, meu reflexo sem presença, um outro eu
Fez tudo que queria e eu estava lá o tempo todo, aplaudindo, achando tudo lindo, como sempre
Cumplicidade, em todas as horas, durante tantos anos, tantas vidas passando entre nossos olhos
Sempre juntos, mesmo separados, sempre unidos, mesmo discordando
Sempre os mesmos, mesmo "mundando" , sempre amando
Confiando, mesmo depois de tantas falhas
Vivendo como os mesmos de antes, mesmo sendo outros
Se o resto do mundo soubesse como é bom beijar o nosso beijo pararia de guerrear e pediria tutoria
Não é o gosto da boca, é o gosto do amor
Quem ama quer cama, pede ao tempo para parar
Pede para não envelhecer, para a hérnia parar de doer
Astro Rei, assinala nosso caminho e eu te sigo
Fiz um acordo com o amor, nem eu o persigo, nem ele foge de mim
Desse modo, deixamos tudo às margens do tempo, e um dia a gente se encontra
E o mundo todo vai parar ao nosso redor para conosco aprender o que é amar

Roberta Moura


Uma carta para uma garota


Minha garota
Essa era só para ser uma carta de amor
Dessas escritas à lápis em papel colorido, desenhando em linhas irregulares a minha saudade
Mas quando penso na distância entre os nossos corpos, quando as minhas mãos tentam traduzir tudo isso em letras, percebo que não é apenas isso
É sentido e sentimento materializado
Que une dois continentes como uma pangeia
Já não cabe mais somente dizer que te amo e o quanto eu gosto de você
Já não sei mais o que fazer para atravessar o córrego ao redor do castelo do seu quarto
Não vale mais apenas escrever o quanto amo o seu cheiro, o seu suor, a sua pele gelada e pálida, o nosso humor debochado, se a distância tenta nos evadir
Não vale apenas o meu encanto, meus exageros, nem os nossos olhos ilegais
Quanto vale o nosso encontro?
Nosso reencontro?
Nosso preço?
Nossa fixação?
Vale o silêncio de tudo o que se sente
Vale a responsabilidade de amar aqueles que te amam e te rodeiam
A inocência e o deleite de confiar e apostar piamente no outro e que tudo ficará bem, mesmo depois de tudo
De tudo isso resta a certeza de um amor eterno e sem tamanho
Puro, livre, surrado, lapidado e desnudo de pudores
Tão desnudos quanto nossos corpos balançando sob a rede
Ahhh... vivemos um amor revestido da certezas do perene, com nuances de um carinho dengoso e preguiçoso, respeitando o tempo sem deixar sucumbir
O amor nos guardará com todo o respeito até o breve
Vamos acreditar no amor, ele é a nossa única alternativa
Daqui, do velho continente, quase posso te tocar com essa saudade de arrasar
Mas eu sigo te amando, desde sempre e para sempre, independente da data do nosso último encontro ou da data que iremos novamente nos encontrar

Roberta Moura



segunda-feira, 2 de abril de 2018

Velho, novo, sempre, para sempre amor




Lá vai ele novamente
Incansável, disposto, insistente
Lá vai ele novamente se entregar de corpo e alma à ela
Os anos se passaram e nada mudou, na verdade tudo mudou
Além do aprofundamento de suas digitais, do brilho perdido nos olhos devido a frágil saúde, as marcas deixadas no seu corpo pelo combate diário que é viver
Lá vai ele, nesse calor infernal dos trópicos, esperar ela sentado à beira de uma calçada escaldante, pendurado em qualquer lugar, esperando um olhar generoso, um sorriso largo, o carinho das mãos mais lindas que ele já teve o prazer de tocar
Espera ansioso, silencioso, devoto
Refém do seu próprio medo, como um idiota apaixonado
Sem limites, sem o direito de se impor, de cobrar nada
Pobre rico de amor
Lá vai ele fazendo planos, se enchendo de esperança em qualquer mísero instante ou chance que se tenha de encontrar a sua pessoa
Sentindo uma imensa necessidade de cuidar de quem já está sendo cuidado
Ele é por ela um verdadeiro pleonasmo 
Um idólatra de carteirinha, um bobalhão, atrapalhado entre o mundo das palavras e o gargalo pesado da sua garganta
Embriagado pela secura dos dias, entregue ao contemplativo papel confessionário
Lá vai ele querendo preencher todos os espaços, o tempo, e ao mesmo tempo disposto de um medo tenebroso de sufocar sua amada, de se sufocar
É tanta sentimentalidade que nenhum dos dois sabe como lidar
Lá vai ele, aprendendo a lidar com a nova forma desse sentimento tão antigo, novo, real, que já está enraizado em seu coração
Um velho novo perene e surpreendente amor
Que ensina, poli, rasga, e se atreve a crescer ainda mais
Que infinito, que magnífico pela força que exerce, que amadurece à duras penas
Confuso, mas feliz, cheio de um amor que transborda, que não cabe nele, sem saber como ofertar
Ele procura letras que o represente, que escreva essa estória de um modo menos doloroso
Mas a história fala por si só, e o final feliz que ele tanto procura não está em castelos nem em 
ofícios, está no presente divino que é amar

Roberta Moura



Partes iguais




Yin e yang, infinito
Tão parecidos, tão distintos
Faz gosto de ver, faz sentido sentir, não é tão fácil assim viver
Dizem que as pessoas se completam no amor, dizem que existem duas partes da mesma laranja, não sei bem se concordo com isso
Há tanta coisa parecida, tanta coisa legítima, tanta coisa dissonante que prefiro acreditar conscientemente na insanidade do amor que na crença popular
As pessoas julgam demais, falam demais, conceituam demais e esquecem de sentir
O amor é dissonante e ao mesmo tempo homogêneo
Deu-se a largada para a contagem regressiva do início da terceira guerra mundial
Armaduras vestidas, lanças em punho, cavalos selados e corações quebrados
Deixa eles guerrearem sozinhos, porque o amor não duela
O amor quer parcimônia, quer balanço de rede, quer o silêncio da contemplação, quer sentir o cheiro da pele ao natural
O amor quer tudo o que a guerra não tem para dar
Todos eles além de nós não querem essa união, isso é fato!
Sempre foi...
Feito o medo do poderio de uma possível aliança entre a França e a Inglaterra, que faria cair por terra tudo aquilo que eles julgavam saber
Saber sobre nós, sobre o amor
A potência do amor alheio desperta a inveja
Então distinto e parecido amor, somente deite sobre o meu colo e espere a tempestade iniciada em um copo d’água passar
Contemple sob meu seio o que se passa na janela da inveja dos outros, daqueles que jamais tiveram a oportunidade de sentir  
Nenhum amor é impossível, o imprevisível conspira por nós, o amor nos conhece felizes assim
Porque de qualquer distância eu vejo seus olhos e ouço a sua voz me chamar, isso une o sul e o norte dos nossos corpos, aliando a dor torturante da saudade, me levando de volta ao seu amor
Para esse velho, novo, constante, eterno, supremo, livre e lindo amor

Roberta Moura



quinta-feira, 22 de março de 2018

Um amorzão da porra

Berlim, Jan2017.


Todos os dias  escrevo na minha mão um pedaço dessa história sem fim
Como um diário de um dia para um avida inteira, que vai além dessa vida aqui, que é a única que as vezes pareço conhecer
Caminhos de sol, casa com gramado e cerca branca, não queremos mais que isso
Que andar de mãos dadas, nos beijarmos na rua, sentir o cheiro do cabelo e do suor
É preciso mesmo muita coragem para se despojar dos excessos, para se desprender do pudor, para desenhar ocultamente os caminhos que a vida nos rabiscou
É preciso um amorzão da porra para resistir a tudo, e ao final de tudo ainda ser quem somos
Nos reconhecer de perto e de não tão perto, saber o que o outro pensa com um olhar, com uma respiração mais profunda, com uma das sobrancelhas arqueadas, com o toque das mãos
É preciso amar demais, mesmo que por vezes aparente ser jamais, e aprender que o nunca não teve chances nas nossas vidas
Temos sede de viver e isso é palpável, é doce, líquido, quente, ardente, feliz, confuso e triste, é chato, abusado, cautelosos, cuidadoso e sempre amoroso
Nós somos o que nascemos para ser!
Nunca nos rotulamos para não ter que romper
Nos dias de hoje é preciso muita coragem para amar, para aprender o valor do amor do outro e dos outros, é preciso coragem para deixar ser amado
É assustador mas é real, lindo, vivo, ímpar, singular, tão nosso
Um estado de sanidade duvidosa, mas que a única certeza que se apresenta pela manhã é a de que é real, que estamos conscientemente apaixonados, que sempre estivemos, que sempre estaremos
Fazemos planos para um futuro brilhante, para breve, sem data para chegar
Vivemos em um tempo só nosso, fabricado sob medida, invisível, legítimo
Ninguém nunca está preparado para um amor desses, talvez passemos nossas vidas inteiras para entender cada fase, cada descoberta, cada dor que ele provocou, cada ensinamento, cada despedida, cada retorno, cada batalha perdida ou vencida...
...Mas de uma coisa temos clareza, que durante tudo isso e todo o lastro de tempo que se esvaio por entre nossos dedos, essa certeza nunca nos abandonou, somos o amor da vida e além da vida do outro


Roberta Moura




sábado, 17 de março de 2018

Do outro lado do tempo


Londres, Dez .2016.


Todas as semanas ela me escreve longas cartas, tem sido assim a tanto tempo que eu nem lembro mais
E eu, desse outro lado do atlântico, de mãos atadas, espero devotamente esse papel
Quanto sentimento cabe nesse papel?
Quando a gente conversa por esses escritos, contando com detalhes tudo o que se passa, a minha impressão é que eu recebo as notícias sempre em primeira mão, tento me enganar insistentemente
Como se o tempo parece no intervalo daquela postagem e somente voltasse a contar quando meus olhos estivessem voltados aquela letras redondas
Quanto amor cabe no espaço do tempo?
Na minha cabeça, no coração e no bolso a levei para passear em todos os lugares dessa cidade monárquica
Em cada parque, em cada avenida... imaginando como seria andar com ela de mãos dadas, aquecendo-a do frio, esquentando os meus pés nos seus
Aqui nessa nublada urbe tudo me faz lembrar quem nunca esteve aqui
Viver de imaginação não é nada fácil, mais vale a sentimentalidade
A imaginação é tão bondosa quanto maléfica e por vezes me pego pensando no que ela está fazendo agora
As minhas cartas não podem chegar com a mesma agilidade, não tem endereço para ser entregue
O extravio das informações me assusta de uma forma brutal e a ela também
Mas o que fazer um amor sobreviver por tanto tempo e a tantas coisas...? alimentar de memórias com cabeta e pedaços de papel é quase missionário
Ela do lado de lá, levando a vida dela, com filhos, esposo e tal
E eu aqui, tomando chá quente, lavando roupas, rasgando meus dedos no violão, fazendo calos na alma, contando todo tempo que posso e guardando recordações futuras em um museu de sentimentos
Amor de hora e data marcada, sem prazo de validade, esperando, imaginando, me contorcendo de ciúmes, sobrevivendo
Mesmo que minha missão acabe, mesmo que o inglês me saia de vez dos lábios e da memória, mesmo que a língua mãe volte a ser pronunciada e sentida nos meus pulmões, nada disso muda a realidade
Somos dois querendo ser um, somos notas musicais aleatórias tentando caber na sinfonia da vida, formar no futuro uma linda canção antiga
Separados e juntos, sempre
E assim fazemos o impossível acontecer a tanto tempo que eu nem sei mais contar
A não ser pelas rugas no meu rosto, pelo fato da gravidade me curvar um pouco mais para baixo todos os dias
Me atrapalho e desconfio dos efeitos da sua ausência, e tudo fica mais frágil, inclusive eu
Eu vejo e sinto o tempo passar, com e sem ela

Roberta Moura