Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.
Procura quem te procura Quem não confunde teu coração Quem não te enche de justificativas, sendo elas verdadeiras ou não Quem te tem como presente, com gratidão Procura quem te tem como prioridade, não apenas como mais uma opção Quem respeita teu silêncio sem soltar da tua mão Quem fica por vontade, mesmo quando nao há necessidade Quem monta mesa só para te receber Procura quem não te julga e sempre se coloca à disposição Quem sai correndo ao teu primeiro chamado Quem quer um para sempre com parceria e amizade Quem sorrir mesmo sem vontade só para te alegrar o coração Procura quem não se esconde e só te busca na precisão Quem nem precisa falar para te mostrar a verdade Quem não te deixa esperando por vaidade Quem entende que não se brinca com um coração Roberta Moura
A recordação que tenho daquele dia é a cor caramelo
dos seus olhos, como se eles estivessem por todo esse tempo maturando para
poder me olhar novamente
Parece que foi ontem, e o pior é que parece que foi
ontem mesmo
Essa coisa de tempo é engraçada para mim, eu
poderia passar um dia todo contemplando o seu mau humor, as suas curvas, as
marcas que o tempo fez no seu rosto, as suas cicatrizes, todas elas,
indiscutivelmente, todas elas de uma só vez
A gente não pode deixar de dizer o que tem que
dizer, fazer o que tem que fazer e já faz tanto tempo que meu maior receio é
que ela volte a esquecer
Naquele dia havia um brilho no seu olhar que quase
me cegou, na verdade, quero parecer que não, mas já estou cego novamente e há
muito tempo o diagnóstico é o mesmo
É como se as minhas pálpebras não pudessem resistir
ao imã do seu olhar, como se o olfato não pudesse evitar o ar que rodeia a sua presença,
como se a mão tivesse obrigação de toca-la, como se meu corpo reagisse e
somente existisse em seu favor
Ali deitada me parece uma miragem, me esperando,
querendo cada segundo, desejando profundamente nosso momento
Um garoto, eu não passo de um garoto na sua presença
E a órbita se abriu, o céu soprou ao nosso favor, a
terra tremeu ou foram minhas pernas cujos movimentos não consigo mais
sincronizar sem os seus paços
Tudo isso diante dela, daquele olhar que me faz
congelar, toda minha complacência, tudo, o tudo que não cabe em mim, que tem
que sair para poder acalmar, surtar para poder alcançar
O meu rosto já não é o mesmo, minhas ancas, meu
peso, meu fôlego, tudo isso faz parte do complexo amor que nos guiou até aqui
Como tocar o mesmo instrumento, apreciando os desafinos, corrigindo as claves e em um momento de pleno
frenesi compor uma nova canção, que nos eternize de vez
Há um preço tão caro a ser pago, tantas pedras
deixadas pelo caminho, as quais fazemos questão de catá-las, uma por uma, para
com elas edificarmos o lar que nos verá adormecer e despertar todos os dias com
novos sonhos
Eu a enxergo com os olhos da alma, como quem tenta
tirar toda dor, todo sofrimento que eu já fiz chegar ou que um outro provocou
Como se eu tivesse que fazer, como fosse tomada por
essa posse Divina afim de arrancar as raízes dessas dores, para isso me fiz
revestida de tantas camadas e armaduras que quase não me enxergo por alguns instantes
Faz tanto tempo e foi ontem, com o passar dos dias,
dos anos, dos danos, das décadas, a gente percebe que ninguém sabe nada sobre
ninguém mas é preciso aprender a começar de novo e reconhecer a ignorância de
cada um sobre a vida alheia, mesmo que o alheio seja o amor
Um à um a gente vai percebendo, ou melhor, o coração
vai escolhendo e afunilando o que a gente reconhece como lar, quem a gente ama acima de
tudo
Quem mais sabe é quem reconhece a cegueira e
adapta-se ao submundo da ignorância, porque é bem melhor esperar tudo de todo
mundo que ser surpreendido do nada, com quem a gente acha que conhece
E assim a gente vai se achando, se segurando,
trincando os dentes, se encaixando, se escondendo, se reencontrando
Todas as vezes que o seu coração quebrou meu colo
foi o seu consolo, vi tantas vezes esse doloroso momento que sei ao certo a
duração do espetáculo, a hora de sair do palco, fechar as cortinas e deixar o show da vida continuar
Mas tudo nela parece permanecer, ou eu que vejo o
infinito no seu perfil mais bonito, assim me permito florescer
A cabeça encostada no meu ombro, os dedos se tocando,
cada ponta, casa falange que se aproxima
Não há presente que suporte a sua distância, não há
pressa maior que a ausência da nossa esperança, porque “ser” do outro, faz tempo
que já “somos”
Havia areia, água e sal Havia sol, mas também sombra Haviam quatro pernas curvadas, de frente para o mar e quatro braços voltados para a mesma posição Haviam alianças mas não estavam nas mãos esquerdas, promessas feitas Haviam sentimentos e não mais ressentimentos Havia um longo passado e quem sabe um futuro, havia um presente contínuo e assustadoramente lindo Haviam olhos nos olhos, canção tocando na cabeça, silêncio da boca, arrepio na nuca e gritos nos poros Havia um desejo tamanho que não cabia em dois peitos separados, queria expulsar as roupas, explodir o resto do mundo, mesmo o resto do mundo tendo sido tão maravilhoso com ambos Havia todo tempo do mundo, mas também havia pressa Havia medo, respeito e companheirismo Havia gratidão e mais medo, há como havia medo Havia medo de tudo, do que é novo, do que é velho, medo da inconsistência, da indecência que é sentir Haviam palavras sem som, vozes sem pessoas, pronome oculto que se esconde sobre o desenhar dessas letras Havia um amor tamanho que insiste em florescer Haviam olhares, calma e desejo Havia um oceano inteiro, límpido, virgem, trepidante, contemplativo, único Havia empatia e sincronicidade, havia sororidade É verbo sem carne, e desejo sem pele, é sentido sem razão É textura, cheiro e olhos que se penetram É um amor infinito, o mais bonito de todos, a dedicação de duas vidas a arte de amar Tudo isso era tudo o que havia Tudo isso é o que há Roberta Moura
Vestindo um longo sobretudo preto espiava de costas para o castelo de Praga a beleza imponente da Ponte Charles. Com os dois pés plantados em uma pedra sabão tentava inutilmente riscar com a ponta do seu sapato polido a rocha que mais parecia aço.
Procurava inspiração, procurava além da névoa daquela tarde algo que lhe aquecesse o sentido de existir. Não levava consigo tristeza, apenas a apatia, a melancolia que é peculiar a todo ser apaixonado e não retribuído. Pensava ser um desperdício sentir tudo aquilo sozinho.
Enquanto caminhava em direção à cidade velha deixava seus dedos passearem nas colunas da ponte castigadas pelo tempo, revezando entre o indicador e o maior de todos o peso dos seus pensamentos.
Olhou atento o trabalho do tempo nas calmas águas do Rio Moldava, batendo e esculpindo vagarosamente sua presença nas pedras centenárias do pé da ponte. Pensou consigo mesmo: “Nunca fui assim, paciente no amor!”.
Na verdade, e muito ao contrário disso, o que lhe separava dos demais amantes era sua capacidade de apaixonar-se tantas vezes pela mesma pessoa em lastros temporais diferentes. Também era bem verdade que sua perspicácia laboral não acompanhava o tolo coração que abrigava.
Havia deixado há mais de dez mil léguas quem tanto amava, por não ser igualmente correspondido resolveu partir.
Encostando a testa no memorial de Santo João Nepomuceno oscilava o pensamento entre viver sem sua fatia de amor ou jogar-se mais uma vez de cabeça naquele sentimento sem recíproca. Pensou em humilhar-se novamente, pensou em quanto já havia dedicado todo seu amor e atenção, pensou que nada disso havia funcionado.
Já era o quadragésimo dia da sua peregrinação, mas não houve um só desses que não pensasse nela, que não escrevesse para ela cartas que talvez jamais entregaria, não houve uma só noite que não procurasse no céu uma estrela que revelasse a ela aquele amor desmedido. Tudo isso mesmo sabendo que ela jamais teria feito o mesmo.
Que todo! Queria retribuição... De tanto amar cegou, não percebia que o amor não pode pedir nada em troca pelo simples privilégio que existe em senti-lo.
Já era tarde e seus passos passaram a ser acelerados, em seu casaco negro reluzia pequenos cristais de neve que aos poucos penetravam as fissuras da linha grossa em forma de gota. Ao observar tal mudança de estado físico sorriu levemente e assegurou que ao menos alguma coisa naquilo tudo estava repleto, quisera estar preenchido como aquela fenda de linha, água e algodão.
Ao reparar seu reflexo no vidro de uma cafeteria na cidade percebeu a afeição trancada, nesse momento refletiu sobre a longa jornada, os açoites do mundo, as belas moças que lhe deram atenção e foram ignoradas, voltou a sentir na boca o sabor das guloseimas mais diferentes que já havia provado, viu além do tempo o que ainda estava por vir, enxergou que o amor para dar certo tem que ser de dois, que de nada vale sacrificar-se em silêncio por um prêmio que ninguém vê, nem mesmo ele.
Foi ali, na beira da calçada, de frente para aquela úmida vitrine que falou para o seu coração e foi ouvido. Jura que escutou os átrios palpitarem em código em quanto lhe dizia que o amor não lhe faria tremer as pernas, nem faria acelerar seus batimentos ao chegar perto, mas lhe traria simplesmente paz.
Talvez fosse exatamente isso o que ele precisasse naquele momento para acovardar-se, para recuar, para bloquear o elefante verde antes que ele o atropelasse de vez, tendo em vista que ele nunca quis fazer parte da sua manada.
O que não faz jus a sua história é que ele nunca foi a escolha dela, mesmo podendo ter sido quem mais a amou. E hoje, em fim, ele percebe que o que foi corda de aço mais parece fio de cabelo.
Pela primeira vez ao longo do tempo, do vento, do frio, do calor, da saudade, percebeu que ele não é quem e o que ela quer e isso deveria ser o bastante para ele parar de sofrer.
É mesmo preciso entender muito sobre si mesmo antes de jurar amor ao outro.
Orlando tomava chá no coração da sala, contemplava
o tempo que lhe passava rápido demais e lhe enchia de rugas as mãos. Repara
como o tempo não volta, como marca com linhas longitudinais os traços da mão,
dizia ele entediado.
Da sala avistava os traços irregulares dos galhos
das árvores, que mais lhe pareciam veias de sangue negro. Sofria aquele homem o
abandono da mulher amada, como sofria...
Naquele inverno tudo estava mais latente, desde a
neve que insistia em cair, quanto a gravidade que não lhe perdoava, representada
nas costumeiras dores nas ancas.
Com uma das mãos segurava um antigo exemplar de Um
Teto Todo Seu, com a outra mergulhava e submergia a colher na infusão feita de mate
torrado, água e tempo, tudo que seria necessário para aquecer o corpo, tendo em
vista que sua alma parecia não mais ter remédio que despertasse o calor.
Orlando esperou tanto tempo, toda a vida, sem nada
reclamar. Fez planos, pintou a casa, lustrou os móveis, comprou à prestação o
sofá que ela tanto queria, moldou a silhueta com a roupa que ela escolhera, mas
tudo a debalde. No fundo, bem no fundo, ele sempre soube disso, que prescindiria
nela a razão de nunca o pertencer. Que novamente seria posto de lado, como se ele
tivesse que pagar karmicamente a missão de tê-la por etapas, nunca para sempre.
Orlando caiu feito um pato nas armadilhas do
destino, mesmo conhecendo todos os caminhos e avistando as mensagens na linha
do tempo que lhes parecia tentar avisar sobre o que lhe esperava.
Mas meias palavras não bastam para que m carrega uma certeza
tão monstruosa quanto o amor que ele sempre sentiu por ela. Talvez não baste todo
o alfabeto e uma sequencia de frases compostas ardilosamente de verbos
transitivos indiretos. Não basta a gramática, nem mesmo as frases curtas e
programadas dela. Ele sempre quis mais que isso, porque sempre teve muito mais para
dar.
Mas, mesmo diante de toda a sua loucura de amor, da
sua paixão desmedida, do caos que permitiu que se instalasse em si mesmo, não foi
o suficiente para desquita-la do marasmo no qual ela lucidamente aceitava
sobreviver, com a desculpa de amor, de retribuição.
Talvez a mediocridade da segurança, o pasmo reflexo
do “deixar quieto o que está quieto” tenha fisgado os seus dias, talvez Orlando
tenha a assustado com suas certezas exageradas.
O que corre nos corredores do distrito é que ele sempre
foi demais para ela, ela sabia disso. Ela fez sua escolha, preferiu viver à
míngua de amor que há sombra da áurea livre dele. Mais uma vez ela perdeu a grande chance, o
cavalo selado, a devoção total de outros ser humano, ela perdeu muito mais que ele,
perdeu a chance de conhecer a vida real.
Aquela sala está vazia agora, sem ela... oxalá possa
aparecer viva alma que um dia o-pertença com um amor tão intenso que desperte
nele novamente o ensejo de fazer alguém feliz por toda vida.
Talvez isso é o que mais entristeça o nobre rapaz
de barba por fazer, e deixa feito um umbral de sentimentos o seu peito, a falta
de fé dela, de quem desistiu de saltar para a vida, desistiu de viver.
Cheiro de manjericão, braços dados Eu poderia parar o mundo naquele instante Sair voando pela cidade, até chegar na nova era Pudera, pudera levar comigo seus doces beijos Sua fragrância acentuada Quem dera, quem dera merecesse o céu, ao menos o da sua boca Pudesse deitar no seu colo sem pressa de sair Chegar em casa e trancar-me no seu leito de ternura e mansidão Há poder no amor, há cura! Amargura não se pode ter, quem tem amor no peito para oferecer Incompatibilidade de gênero, número e grau Amor é um, amargura é dois, separados Mais de trinta e dois dentes, nenhuma polegada a mais é necessária, quando de perto se tem o que precisa, sua morada é o sopro da minha brisa Calor e fogo perene, alimentado de forno à fogão É como ter um guarda-chuva, um para raios e ao mesmo tempo invocar todas as forças da natureza Canto e danço como doida, esquisita, na palma da sua mão Conjugando o mesmo verbo de outrora, no presente, contando com essa hora Majestade sem coroa, juvenil reinado, santo escapulário de devoção é o teu rosto, devoto sou do teu coração Canção cantarolada pelo brunir do sono, velo teus olhos com um olhar de cão sem dono Me deixo levar por esses momentos de completo frenesi Assino a lista de presença do teu mais silencioso encanto Gravo o teu nome nos meus dias Passamos a ser uma só palavra, um nome, uma poesia Somos nós, uma só sílaba átona, gritada pela madrugada Justiça que tarda mais não falha, prazer em te receber, sempre leve, nunca de mãos atadas Para ser sempre a sua cúmplice, amada, amiga, namorada Roberta Moura
Quero tuas veias, o sangue que circunda as vielas do teu apetecer
Vinde ao meu auxílio, aspirar da minha devoção
Quero o teu fervor, o calor de tuas mãos
Olha nos meus olhos e te encontres por lá
Quero a tua lucidez verdadeira, a tua subida, segurar a tua escada
Não quero precisar te segurar, não te quero ver cair no chão
Quero tua luz que me irradia, quero tua volição, teu perfume, mergulhar a tua guia na minha mais forte aspiração
Ser seu pão de cada dia, seu tudo, seu descansar, sua agonia
Quero os teus sentidos mais profundos, proteger a tua casa, desenhar o teu mundo
De tanto querer as vezes silencio, não digo o que quero, as vezes repito
Onde estamos nós, dentro ou fora do abismo, imbuídos nessas lacunas de falsas informações
Seu querer me espera e de longe avista a esperança na janela
Espia com devoção a minha mais recente chegada, a volta para casa, meu sublime torrão
Meu querer é seu sossego, sua certeza mais profunda, a nuance da sua pele e meu couro reluzente, na boca o beijo mais profundo
Somos além desses problemas, somos retrógrados vivendo nesse mundo
Esperando o sol que nasce de madrugada e a nave que nos leve para o outro mundo
Construa o seu caminho de volta com as migalhas que te dei outrora, para que encontre o verdadeiro banquete que te espera, no meu peito seu amor não paga mora
Fique atento no que te digo, os sinais não mudam a história, somente o querer mais profundo é capaz de oferecer a reviravolta
Vejamos o que podemos fazer no limiar dessa velha, nova e perene fábula
Rejeite o sossego desprovido, o beijo do amigo e um amor que se reduz a memórias
Mantenha quente o peito e nutrido o amor que te faz caminhar, que te torna invisível aos olhos do bandido, que te eterniza na história
Seja meu prazer inquieto, meu calar mais perpétuo, minha exatidão