Quem sou eu

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Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um lugar chamado eu



Saudades se escreve com L
L de love, do efêmero, daquilo que não se escolhe sentir
Que saudade que dá
Queria nunca ter conhecido, me acovardar como tantos outros
Deveria nunca ter saído de casa e seguido meus instintos em sua direção
Quem dera não ter alimentado em mim esse instinto de buscar sempre mais
Nesses dias nublados, congelo o coração e sinto um frio na barriga sem igual
A pele pede, os olhos marejam, o olfato busca, o paladar coteja
Por essas bandas dos trópicos nada será como antes
Sempre haverá comparações e recomeços na tentativa de esquecer
Que humanidade essa minha, que fraqueza, que ludicidade
My place, prazer em minha vida
Um habitat, uma vida, um devaneio, uma certeza
Vidas passadas, vida presente, um amor distante sempre será um amor
Como matar essa saudade antes que ela me mate?
Faca de dois gumes, toque macio em minha alma
Assassino das certezas que inventei para mim
Eu pensei que viver era não ter que transbordar, mas percebo que tenho que me espalhar




Roberta Moura


terça-feira, 8 de março de 2016

Não é o que parece


Imagem de René Françóis Ghislain Magritte, surrealista Belga.



Aqueles olhos verdes eram de matrimônio, e eu, que sabia de todas as coisas, experimento o branco da ignorância no mais tímido silêncio
Me apaixonei
Percebo que estive cega e a experiência não foi das melhores
Deixei-me guiar por aquele par de olhos imaturos, as esmeraldas do meu tesouro me deixaram fenecer
Foram tantas idas e vindas de sentimentos, tantos desencontros, tantas traições... que já não cabem no meu sorriso amarelo
Enquanto eu lamentava, ele provava outras bocas... línguas e salivas ácidas que o envenenava sem perceber
O cálice da luxúria e aqueles sapatos brancos o envaidecia como poucas coisas, sem falar naqueles olhos cor de oceano
Partiu o meu relicário aquele sorriso sonso e seus impulsos já não eram tão ocultos
Fiquei com a garganta seca e o entrave do lamento das palavras que nunca falei
Foi aí que eu o traí
Traí sem culpa, sem arrependimentos
Dona da razão e das forças que conduzem a minha vida
Deixei para trás aquela casa com cheiro de lavanda e as roupas das crianças estendidas no varal
Fui para não voltar mais, fui como se não houvesse um amanhã
O fiz tantas e tantas vezes que esqueci de me apaixonar
Simplesmente traí
Quando em casa, em outros tempos, reparava as marcas de batom na tua roupa, hoje sequer o exagero no perfume barato da meretriz que toma conta da sala de jantar mas não me agita o estômago
Isso porque estou te traindo, só por isso
Olho aquela foto na parede, típico modelo de família patriarcal... que lástima, que ridículo
Tenho mais pesar pelo que parecemos ser do que pelo que faço com a tua cabeça
Bela fotografia na parede, ela é o que queremos parecer e o que talvez quase fomos
Talvez, se esse par de olhos cor do mar não atraíssem tanto, se meus reclames fossem mais presentes e menos latentes que a minha necessidade de me sentir amada...
Se não houvesse tantos corpos vazios, cochas e tornozelos torneados e o vinho não nos subisse tanto a cabeça...
Quem sabe...
Hoje o que nos resta é posar para fotografias, ir à igreja aos domingos, dar lição de moral aos nossos filhos
Porque percebo que o que pensava que éramos somente me parecia ser
Fomos perfeitos pela metade, por cada um de nós e nossas buscas desvairadas por sermos amados
Nos deixamos sem ir embora, nos esquecemos sem perceber, nos abandonamos em dupla, nunca fomos um par... "Nous ne sommes pas ce qu'lis semblent être..."



Roberta Moura


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Não há mais...

Obra intitulada Baco - Caravaggio



Não se faz mais amantes como nós dois
Basta uma fresta por onde entre o ar do templo nublado
Basta Hitchcock nos dar motivo para encostar
Basta um vinho barato e uma conversa na beira do mar
Basta você chegar
Métrica e linhas nunca nos traduziram bem
Não nos denominamos jamais
Jamais fomos embora de vez
Jamais fomos
Basta janeiro chegar, para mimar você nas quatro estações
Minha pátria é o teu colo, o sossego dos mais “ais”
Meu brasão o teu nome alegora
Sou um soldado depois da guerra, sem bandeira para hastear
Nunca nos demos patente
Mas basta você me olhar e tudo muda, tudo vai se encaixar
Basta acenar com a cabeça, olhando de lado, com uma das sobrancelhas arqueada
Não há mais tamanha devoção como a nossa
Rugir de leões e ursos pardos rasgando o prelúdio
Somos nós
Os relatos nunca contam o que de fato acontece
Relatos são meras peças de um quebra-cabeça montado por quem conta
Acredita que sabe, sabe nada o contador
Conta o que lhe parece que causará dor
Somos uma obra rara sem terminação
Como o auto-retrato no vinho de um Caravaggio
Nós dois somos de um só
Não se faz mais amor como o nosso
Banhados de perfume e sedução, sem precedentes
Passeio de bicicleta, caminhada lenta no quintal, conversa de pé de ouvido
Segredos que já não eram só meus, o amor não vai embora
Embora o tempo demore, e as casas já não são mais tingidas das mesmas coisas
Paredes mudam de lugar
Aprendemos a voar na madrugada, plainando sob os prédios da cidade
Os amantes sabem de tudo o que acontecem na madrugada
Sempre soubemos de tudo desse universo que nos une e que nos destrói
Pouco usamos à nosso favor das magias desenvolvidas nas Brumas de Avalon
Como um castelo sem o seu aristocrata nos abandonamos e nos vigiamos de longe
Na sapiência de que quando voltarmos reconheceremos cada pastilha do piso de madeira, cada cadeira e seu arranhão no ladrilho
Cada cobertor que escondeu nossas vergonhas, cada dobra dos nossos corpos e do nosso orgulho idiota



Roberta Moura






sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Vaca Profana


Se faz de santa
Tudo para ela é sob medida, por encomenda
Metida!
Dona da razão e do mundo
Palavras que se repetem em um universo de possibilidades
Mentiras!
Na rua uma dama, uma puta na cama
Faz que não é com ela
Fingida!
Diverte-se com a situação
Família, marido, filhos, dinheiro
Ilusão!
Tem tudo e nada tem
Faz como lhe interessa
Falida!
Ataca impiedosamente, sangue novo no pedaço
Joga charme como se pudesse cumprir o que promete
Carente!
Senhora do mundo, não tem tempo para nada que não seja ela
Desdoura seu leito sem piedade, muda de personagens como de roupa e de presa
Profana!
Crueldade cuspida em palavras
Amante inveterada, solitária para todo sempre
Agressiva!
Se faz de vítima e ataca, sempre
As regras só servem se estiverem à seu favor
Perdedora!
Nunca lhe ensinaram a perder, antes de mim
O dia da presa chegou, vou me livrar de você
Quem não morre de amores?
Quem a si mesmo ama!

Roberta Moura

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Aquela estação



Abro os olhos e vejo o mesmo, como se o tempo não realizasse o milagre da vida
Vejo você e percebo que ao meu redor pouca coisa mudou
O seu sorriso, o meu apresso, uma vida não seria bastante para tudo isso
Como se tudo tivesse ficado no mesmo lugar
Como o telefone que toca sozinho
As manias, as falésias, as batidas das ondas do mar não furassem as pedras
Percebo no desenho da tua mão que quase nada mudou
Pisamos no amor e partimos ele em dois, e no espaço desse vazio sobraram tantos outros “ais”, tantos outros “quais” que submergimos
Ninguém mais sorriu daquele jeito debochado como nós
Guardamos letras, canções, gargalhadas e lágrimas, isso tudo que ofertamos ao mundo de conta gotas
 Meu copo sempre esteve metade cheio que nem cheguei a perceber o quanto o seu sempre gotejou para os lados
O trem das nossas vidas parece andar mas na verdade está parado na mesma estação aguardando um aceno, um adeus
A janela lateral, que dá bem para a frente do fundo dos teus olhos, me lembra que eu não posso chorar
Fatídica posição dessa janela
Paro, respiro e me pergunto...
Quantas perguntas tortas e respostas vazias irão nos explicar (?)
Você não passa
Você sempre volta
Você nunca foi


Roberta Moura


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Ele não chegou...


Cravo a tua letra no meu nome
E de longe, tudo me parece mais fácil
Até consigo me ver daqui desse lado, onde o mar da saudade se esconde
Falo e finjo não querer nada do nada
Apesar da lacuna da verdade
Castros lábios que não me roubarão o último sussurro de um sentimento dubiamente maculado
Sombra do acaso, história sem fim
Faz que não olha e me leva para casa
Passa a noite toda imaginando como seria fácil
Percebe que lhe faltou coragem e que jogou fora seu último pedaço de mim
Dá de alimento a sua esperança, com a certeza de que seu deus vê tudo, e desde a sua infância espera por mim
Pedaço de solidão acompanhado
Nunca chorou a mágoa de ser abandonado, sempre deixou alguém esperando do outro lado
Não soube o que é sofrer com o coração congelado, esperando o verão de emoções lhe fazer sorrir
Ele não chegou
O que te acompanha é a fajuta loucura de mais um apaixonado
Reza antes de dormir e não toma cuidado
Pede ao seu deus o que lhe seria de bom grado, sem saber que os deuses sempre cobram dobrado daqueles que exigem e não sabem dividir
Agradece como quem tem intimidade, olha para o lado e procura saber se ainda estou por ali
Diz que vai se casar, mente para si mesmo à todo tempo
Pobre criatura iludida pelos seus próprios sonhos, custa realizar
Cumprirei todas as minhas mais esdrúxulas promessas, não porque merece a paga do meu sacrifício o imolado, mas pela escola de dura palmatória que me fez crescer
Enquanto os seus erros forem os mesmos as suas respostas dadas pelo mundo também serão
Desde daquele fatídico dia em que o seu olhar invadiu o meu eu sabia, perdi para você a minha vida
As mentiras carregaram sonhos e planos, mas não conseguiram levar o amor
Com o tempo ganhamos peso e um banho de realidade, mas nada apaga a tal da saudade
Tão somente porque meu coração por vezes se sente apertado pela falta de maturidade que me levou a ter que partir, a repetir, a sucumbir
Tanta tinta marcando o muro do vizinho com as nossas iniciais, que desperdício, se não fomos feitos um para o outro
Não é com ela que você sonha, nem com quem você se casaria
Que desperdício de tempo e de vida
As vezes a vida só espera uma atitude sua, mas uma atitude justa!
Que gabarite a sua entrada na vida das pessoas, e mais que isso, que justifique a sua permanência
Como Adriana Calcanhoto, digo que “há algo que jamais se esclareceu... onde foi exatamente, que larguei naquele dia mesmo, o leão que sempre cavalguei?”


Roberta Moura


sexta-feira, 27 de março de 2015

Chefes e Líderes – Crônicas do Cotidiano





Os chefes ordenam, os líderes orientam.
Os chefes demandam, os líderes coordenam.
Ser chefe depende de posição, de rótulos e muitas vezes de indicação.
Ser líder é natural, está no sangue, nas palavras e atitudes, e para quem acredita está na força do sobre natural.
Um chefe depende de nomeação, um líder de reconhecimento popular.
Um líder, gratuitamente, conseguirá conquistar os mais fieis seguidores, enquanto o chefe, mesmo pagando à preço de outro os serviços dos seus subordinados, jamais alistará gratuitamente o respeito desses.
Um chefe se monta, se constrói, se almeja, se destrói, enquanto o líder é constituído de atitudes, de uma sequência de atos que responsavelmente planejados e executados, que lhe impulsionam à caminho da excelência.
Na glória o chefe aparece, o subordinado enlouquece e o lucro, uma vez ou outra subsiste. Na dificuldade o chefe enlouquece, toma atitudes imediatistas e sem o qualquer conhecimento de causa varre para baixo do tapete a confusão que produz, não mede consequências e se arrisca sem o menor lamento. Jamais reconhecerá um erro, e quando mais nada lhe sobrar, só lhe fará companhia o lamento da solidão e de não poder em ninguém confiar.
Na glória o líder compartilha com seus pares e reestrutura planos porque sabe que a fama é passageira. Alimenta o ego, mas feito poeira, sempre é soprada para outro lugar. Ele partilha o conhecimento sem medo, porque não tem receio, pois sabe que o seu talento ninguém pode tirar. Na peleja da derrota chora com os seus semelhantes, mas toma coragem e aprendizado, pois tem certeza de que é capaz de “qualquer Lázaro levantar”. Percebe que sempre terá mais uma chance e que a lição lhe fará melhor e mais experiente, o bom líder sempre sabe esperar.
O chefe acredita mais na ação que na prevenção e por vezes não dá ouvidos à sua própria intuição. Intuição essa que lá atrás lhe guiou desde quando almejava está nesse lugar, e que não tem mais utilidade alguma porque confia que de lá não vá passar.
O líder não tem limites, porque sempre haverá algo à conquistar. Mesmo que esse algo lhe encaminhe e lhe atire além da zona de conforto. Afinal, ele sempre se lembra que foi encarando de frente a sua zona de conforto e discutindo os seus limites próprios que ele chegou onde está. O desafio é o seu caminho e o sucesso o seu lugar.
Mais do que padrões de escala e/ou profissionais, você tem a oportunidade natural de eleger para si o comportamento que vai assumir diante da sua própria vida. Nas mais diversas áreas do seu conhecimento profissional, da vida real e dos sonhos que pretende conquistar sempre haverá desafios e escolhas, decisões sempre serão tomadas, e é nesse momento que o chefe e o líder irão se encontrar, mas é você quem escolhe qual dos dois vai usar.



Roberta Moura