Quem sou eu

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Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Um





Nós somos uma canção inacabada
Somos gole de uísque deixado no copo, somos roupas pelo chão
Somos balanço de rede, amor gritando no silêncio, somos o arrepio na espinha
Nós somos o badalar do Big Ben, a mala pronta para zarpar
Somos vontade todo tempo, somos quem era, o que é e o que ainda está por vir
Somos tantos e somos um só, somos provocação e descanso de cabeça no colo
Nós somos sacrifícios e tédio diário, suportamos um mundo que não foi feito para nós
Somos o mesmo número de sapato, o batom vermelho escrachado
Somos o seu desejo por segurança e a minha inconsistência e mudança
Nós somos o que verdadeiramente queremos ser
Somos o toque discreto com os olhos, a sede no escuro do quarto, o guiar das mãos
Somos o dia bom e o dia não tão bom, mas que ao final percebe-se que deu tudo certo
Nós somos o desenho rabiscado do tempo que insistimos em corrigir, mesmo estando tão longe da perfeição
Somos luz na escuridão, o indicativo do presente, um pretérito imperfeito...
Somos apelos, seu medo, meu desejo, sua razão
Nós somos um só, para deixar ser o que tem que ser

Roberta Moura




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Estranhamente nosso


Dormiu de boca aberta...
E eu rezo por ela, todos os dias enquanto respirar
Virada para o lado esquerdo, ou voltada contra qualquer corpo que tente agarrar
Dorme de quina para a lua
Parece que tô vendo, uma perna esticada e outra em 45 graus

Travesseiro e cama, pequena ou grande, ereto ou de banda, me encolho inteiro para ela se espalhar
Suando o cangote, mesmo com o ventilador ligado
Acorda com reclamação, o calor tá demais, sopra o pescoço que o vento é pouco
Eu caio nesse laço, exatamente do mesmo jeito
Com toda a liberdade, como quem pula em um precipício
Como quem sabe onde tudo isso vai dar, mas sem qualquer receio de se estabanar
Vai seguindo o fluxo sanguíneo, dos conexos neurais, hormonais, instintivos
Como um amor que ama mais que tudo, daquele do qual se falou outro dia para uma amiga
Desses que não são daqueles
Que é preciso tempo para maturar, para apurar, para se concretizar
Do nosso estranho e único modo de ser, nosso jeito único de ser exclusivamente nosso


Roberta Moura


De portas e peito aberto


Entre os paralelos, entre as linhas, os pilares e anos
Entre os meridianos, as juras, devoção recíproca, alinhamentos e planos
Entre as luas, no meio da noite, comportadamente vestida ou parcialmente nua
Entre os encaixes, o silêncio, as letras, as promessas feitas e a lealdade exercitada
Entre o céu, a terra, a corda bamba e do violão, dentro das canções que encantam
Entre o sim e o breve, o papel timbrado, a saúde e a doença, no meio de qualquer crença
Entre e fique à vontade
Descansa a cabeça que pesa entre os ombros, fecha os olhos e parte para um plano só nosso
Bem no meio desse oceano, do aparente caos instalado, entre a exaustão e o cansaço
Entre que a casa é sua
Essa janela azul e a porta da alma sempre estará aberta, esperando você chegar
Com o peso do mundo sobre os braços, com a alma pedindo para aliviar o cansaço
Entre que o colo é seu, todo anseio, a base, os braços, os seios, tudo o que aparentemente seria apenas meu
Entre e chegue para ficar, venha com seu fardo pesado, pronta para se aninhar, volte para onde nunca deveria ter saído
Entre e fique comigo, pois aqui é o seu lugar


Roberta Moura




Paraquedas






Formou-se como o melhor da turma, foi o melhor namorado, o amigo mais dedicado, o filho que toda mãe quer ter
Galgou boa posição social, boa conta bancária, só não logrou êxito em controlar o incontrolável, caiu na tentação de amar
Caiu!
Se entalando com feijão e farinha todos os dias às 12:00 horas, no fim da noite sentava na varanda e discutia política, arte, amor com uma propriedade que não possuía
Mas na sua cabeça, mas no seu coração, havia um buraco tamanho, que não cabia mais nele, que nunca mais iria fechar, abriu-se a caixa de pandora que sempre comentara com os mais íntimos
Comentar isso o fazia calar de uma horar para a outra, o fazia parar de raciocinar normalmente, como de costume
Conturbava e desconectava seus pensamentos sempre tão retilíneo, o fazia humano demais, coisa que ele não gostava, o entregava de bandeja nas mãos dela
Todas as vezes que olhava para uma pá pensava em ler um tutorial que lhe ensinasse a enterrar um coração que ainda pulsava, que latejava o nome da amada, que lhe tirava a concentração trivial
Queria escrever um novo tratado mas lhe fugiam as palavras, queria combinar mais um plano infalível, mas o raciocínio lhe fugia da lógica
Todas as promessas foram quebradas, tudo que jurou não fazer lhe cobrava mora, tornou-se tudo o que ignorava e justificara tal tese no amor
O que o coração lhe falava não era o que a realidade assinava, ele acreditou no coração, mais uma vez e despencou de um penhasco tão auto que enquanto caia não percebia, não percebeu que chegava o que lhe fez arrebentar-se no chão
Devastado, foi a palavra que usou ao me contar com detalhes tudo o que viu e ouviu naquela noite
Um coitado, que de tanto amor cegou e voltou a enxergar na hora e lugar que menos queria, em meio à uma multidão, sozinho
Recusa o cale-se, recusa o tinto do vinho, recusa ter que escutar desculpas, nada grita mais auto aos ouvidos de um apaixonado que a voz doce e suave do seu amor
Foi dela que ouviu, dela que entorpeceu, dela que recobrou a consciência de abrir o paraquedas antes de enfiar a cara no chão de vez e levar consigo tantos sonhos ainda não realizados
Não há mais dúvidas, as coisas são para o que e para quem são
E, embora sua consciência discuta ferozmente com o seu coração, segue sozinho o fado daqueles que precisam escutar mais que falar, então cala  
Tudo parecia normal, tudo parecia sublime e era, só ele fazia questão de ignorar a verdade
Existiria sempre alguém na sua frente na hierarquia do amor daquela mulher, sempre houve, sempre haverá
Custou a entender, e possa ser que ainda não tenha entendido profundamente a regra da razão, da coisa toda
Olhando bem no reflexo dos seus olhos percebi o quanto se enganou com uma realidade que ele mesmo construiu, que inocência, que subestimação do seu próprio sentimento, de todo sentimento
Quer me dizer que vai dar uma chance a razão, mas não me parece confiante, acho que é muito mais aquilo que ele deseja do que aquilo que realmente fará
Conscientemente e encarecidamente peço para que tenha paciência e escute os sinais do destino, da realidade que o cerca, que deixe o paraquedas em alerta, que não hesite em utiliza-lo
Com ouvido de mercador ele cala! Ele sempre cala!
Sensibilidade, amor, versos e realidade, esse jogo deveria ser proibido, é uma queda de braços injusta
Coração, não pegue pesado com quem é leve, perdoe-se
Ele bem sabe que o tempo não cura, somente tira o incurável do centro das atenções, contudo, nada disso faz acreditar menos, todas as vezes, as falidas e repetidas vezes
Cura é consequência do jeito que você vê a vida meu dileto amigo, se não faz sentir não faz sentido
E quando não se sabe o que dizer é suficiente sentir
Ao que me parece, há uma infinita esperança ligada ao amor que promete que tudo vai ficar bem, mesmo quando o óbvio e a razão assinala o contrário

Roberta Moura



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Quem não pode parar

Londres, 2017.


Passa das 19:00 horas, caminha em sentido contrário a névoa que lhe cortam os lábios de frio
Não vê a rua sobre a qual caminha, não enxerga a calçada, nem o beiral que separa seus pés do meio da estrada
Ela só caminha levando consigo o fluxo dos seus pensamentos nos olhos, não discerne, ou finge não enxergar o que está bem na sua frente
Por tanto não querer enxergar não esperava que uma bigorna apontava para a sua testa há tempos
Fazia frio naquela noite no lado leste da Tower Bright, ela visivelmente cansada, sentou-se faminta, mais que isso, sentia um vazio ensurdecedor
Parada por alguns instantes ela tentava respirava, desentalar as palavras que corriam contra o fluxo mecânico e gástrico do seu corpo
Acende com dificuldade um cigarro de aroma insuportável e com a outra mão apalpa no bolso esquerdo uma garrafa vazia de alegria, acabou-se, mais uma vez
Ela jura que quer parar, mas o enfeite ilusório de um amor que deixou invadir seus sentidos novamente lhe prova o contrário, cai igualmente em seus próprios devaneios
Não está mais lúcida, não quer mais pensar, se recusa a obedecer ordens, apenas acena positivamente com a cabeça quando lhe convém
O certo é que ela não quer mais nada dessa vida medíocre, de bater ponto no trabalho, de chegar em casa todos os dias sozinha, ela não quer mais pensar
E tudo que ela queria era voltar para casa com um sinal positivo da vida, tirar dos seus olhos aqueles tijolos vermelhos que cercavam o bairro e que lhe trancavam feito um labirinto
Foram tantas as palavras que disse, tanta exposição, deu tanto seu coração e seu corpo que parece ter esgotado a fonte de desejo que despertara o animal que silenciosamente lhe habita
Pensou por um momento que sua a caminhada teria chego ao final, tola
Pensou poder descansar seus pés gelados, pensou e pensa demais essa pobre moça
Viajando entre o desejo e a temperança que lhe faz parecer eternamente serviçal, deixou escapar a sua sagrada sanidade
Pensa consigo mesma, “eu não posso chorar” e engole palavras doces como bala de canhão
Concorda, por outro lado, com as cobertas de razão decisões de quem comanda
Ela obedece por não ter mais juízo, por não ter mais forças para lutar contra a realidade que tanto tentou esconder para si mesmo
Hoje, caminha esmo, sem saber para onde está indo, carregando consigo apenas o ecoante instinto de sobrevivência que lhe insiste em dizer: -você não pode parar!


Roberta Moura




Uma carta para ele


Roma, Jan. 2017.

Meu caro amigo
Faz tempo que procuro um jeito de dedicar a essa a tudo isso algumas considerações
Em especial, sobre essa minha necessidade incontrolável de te contar sobre os caminhos pelos quais tenho passado
Não tem sido nada fácil, nada confortável, ter que lidar com essa sensibilidade extrema
Sabe, ninguém perguntou como estão meus dias, nem mesmo se essa tal felicidade tem me visitado
Ninguém me perguntou se estou feliz
Tenho carregado o mundo inteiro em minhas costas e essa bagagem tem pesado um tanto mais que a mim mesmo
Nada que vem de fora me tem atingido, senão a sapiência das especulações e da falta de amor próprio, além dessa sensibilidade e ansiedade extrema
Meu querido, você não tem noção do que a carência é capaz de provocar
As pessoas exigem amor e respeito vestidas de vaidade, insegurança, ciúmes e egoísmo
É realmente lamentável vislumbrar tamanha discordância entre os sentimentos
A posse, a inveja e até mesmo a falta de amor próprio, tudo isso cria uma onda de negatividade terrível, apta a consumir até mesmo as melhores intenções
A carência e a necessidade de pendurar-se em outra vida distrai o foco da realidade e acaba por deturpar o futuro
Confesso que não sei lidar com tudo tentando sustentar a razão costumeira
Quando o ser humano perde a individualidade dos seus sonhos e sentidos passa a viver na aflição, na agonia, no sufoco
Por certo há de haver maior habilidade minha no sentido de contornar tudo isso, mais que isso, há de haver empenho, por isso oro para não faltar vontade de faze-lo

Roberta Moura



Sobre chegadas, regressos e partidas

Berlin, Schönefeld, 2017.


Tomo um café preto e robusto, aqui, na sala de espera desse aeroporto, no meio dos vários nadas que me cercam
Sem saber ao certo onde devo ir, se devo ficar ou como prosseguir eu me intalo de pó, cafeína e água quente
Você puxou o freio de mão da nossa locomotiva e quem capotou fui eu
Que tolice a minha, que burrice, logo eu que assisti de camarote e tantas vezes esse mesmo filme, que confusão é essa na qual mergulho reiterada e conscientemente
Daqui do saguão reparo as pessoas que passam de um lado para o outro, sempre com pressa, como quem sabe onde precisa chegar
Invejo essa segurança, essa autonomia toda
Eu invejo essa disponibilidade, esse lance de escolher o que sentir e medir as consequências com precisão
Na verdade, o problema não é o freio de mão puxado, mas a mão na direção que guia tudo isso, eu não deveria ter me abandonado, entregue assim tão facilmente
Faço listas e desenho um futuro próximo em uma folha de guardanapo
Cai no formato de gota a borra do café, mas ela não desvenda o meu astro
Penso que preciso de um novo CEP, novos rostos, novos sonhos, carimbos no passaporte, novas línguas e linguagens
Percebo que a única coisa que não muda é a figura do seu rosto, esse velho novo rosto que insiste em me seguir
Um rosto gravado na memória do meu coração, que tantas vezes já foi pisoteado pelo mundo e idolatrado por mim
Dono das mãos que puxam o freio, o gatilho e me bloqueiam indo de encontro ao meu tórax, que por vezes me impedem de prosseguir
A moça chama a minha partida no alto-falante e eu gelo dos pés a cabeça
Não porque estou indo embora mais uma vez, mas porque ninguém deseja me impedir
Ninguém para chegar na fila do check-in e gritar o meu nome, ninguém para me pedir em casamento no meio da multidão
Ninguém para me beijar tirando o fôlego e pedir para eu ficar
Que sina essa minha, de dormir depois e acordar antes, por fim dormir sozinha
No fundo eu sei que o mundo é a minha casa e o passaporte da minha felicidade precisa ser validado unicamente por mim
Ainda me falta esse controle, pois eu tendo em perde-lo todas as vezes que vejo o seu rosto
"As coisas não podem ser assim", foi a justificativa dele ao me ouvir
Logo eu, que falava tão pouco e agora me exponho tanto
Quando seus olhos deitam sobre os meus as vezes se dilatam, as vezes me relatam, outras me delatam, noutras me deletam
Tudo me parece fruto do descaso, uma brincadeira sarcástica do destino sob minha invejável liberdade
Nada me convence do óbvio que trago em meu peito, pois tantas vidas que terei as gastarei em atropelamentos, barroadas e capotadas, mas me recusarei a deixar de sentir

Roberta Moura