Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.
O céu é o
seu refém, e as nuvens escondem suas verdades
Ela é feita
de luxúria, mentiras, humor e uma discreta timidez
As palavras
já não cabem na minha boca e eu custo em acreditar que todas as noites ela me
sorri e diz que tudo isso vai passar
O tempo tem
nos feito de refém, os dentes incisos à tempo rasgaram nossa gengiva e mesmo
assim eu não cresci o suficiente para parar
Todos os
dados foram jogados dentro daquele copo de couro
Enquanto
esperamos o resultado dessa soma eu traço planos de como conquistar o seu mundo
Ela para,
para, parada, sempre para...e eu continuo engatada em uma marcha alucinante
Se despede
de mim com a autoridade de quem acha que tem controle sobre o mundo inteiro
Tem nada,
sabe nem se volta para casa, se vai me ver mais tarde
Ela arranja
outro namorado e novas juras de amor eterno
Que nada,
que certeza de nada essa dela, eu sei que ela vai parar
Porque ela
sempre para
Quando está
longe demais de casa, longe demais de mim, longe dela mesmo
Não
consegue e para, não sabe como lidar
Não é
imprecisão, não é frustração, não é covardia... é apenas ela sendo ela
Não é nada dessas coisas que você está pensando, não é ruim, nem bom
E quando
volta com cara de quem não chegou a pensar em abandonar tudo eu finjo não saber
e continuo no meu salto mortal de encontro ao nada, tentando nunca parar
Imagem de René Françóis Ghislain Magritte, surrealista Belga.
Aqueles
olhos verdes eram de matrimônio, e eu, que sabia de todas as coisas,
experimento o branco da ignorância no mais tímido silêncio
Me
apaixonei
Percebo que
estive cega e a experiência não foi das melhores
Deixei-me
guiar por aquele par de olhos imaturos, as esmeraldas do meu tesouro me
deixaram fenecer
Foram
tantas idas e vindas de sentimentos, tantos desencontros, tantas traições...
que já não cabem no meu sorriso amarelo
Enquanto eu
lamentava, ele provava outras bocas... línguas e salivas ácidas que o
envenenava sem perceber
O cálice da
luxúria e aqueles sapatos brancos o envaidecia como poucas coisas, sem falar
naqueles olhos cor de oceano
Partiu o
meu relicário aquele sorriso sonso e seus impulsos já não eram tão ocultos
Fiquei com
a garganta seca e o entrave do lamento das palavras que nunca falei
Foi aí que
eu o traí
Traí sem
culpa, sem arrependimentos
Dona da
razão e das forças que conduzem a minha vida
Deixei para
trás aquela casa com cheiro de lavanda e as roupas das crianças estendidas no
varal
Fui para
não voltar mais, fui como se não houvesse um amanhã
O fiz
tantas e tantas vezes que esqueci de me apaixonar
Simplesmente
traí
Quando em
casa, em outros tempos, reparava as marcas de batom na tua roupa, hoje sequer o
exagero no perfume barato da meretriz que toma conta da sala de jantar mas não
me agita o estômago
Isso porque
estou te traindo, só por isso
Olho aquela
foto na parede, típico modelo de família patriarcal... que lástima, que
ridículo
Tenho mais
pesar pelo que parecemos ser do que pelo que faço com a tua cabeça
Bela
fotografia na parede, ela é o que queremos parecer e o que talvez quase fomos
Talvez, se
esse par de olhos cor do mar não atraíssem tanto, se meus reclames fossem mais presentes
e menos latentes que a minha necessidade de me sentir amada...
Se não
houvesse tantos corpos vazios, cochas e tornozelos torneados e o vinho não nos
subisse tanto a cabeça...
Quem
sabe...
Hoje o que
nos resta é posar para fotografias, ir à igreja aos domingos, dar lição de
moral aos nossos filhos
Porque
percebo que o que pensava que éramos somente me parecia ser
Fomos
perfeitos pela metade, por cada um de nós e nossas buscas desvairadas por
sermos amados
Nos
deixamos sem ir embora, nos esquecemos sem perceber, nos abandonamos em dupla,
nunca fomos um par... "Nous ne sommes pas ce qu'lis semblent être..."