Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.
Para um
homem como eu, esse sentimento nunca será lecionável, questionável Faz tempo deixei de tentar entender
Prefiro
doses homeopáticas que a abstinência, que a overdose que é te amar
Toma meus
poros e todo o resto de pudor que ainda guardo
Me guarda
em teu colo, em teus peitos, no cangote, me adote, porque eu quero me aninhar
Na
fragilidade de quem ama, na altura do meu grau, de repente o doce pode se por
amargo
Arriscado
demais perder pela milésima vez quem nunca se foi
Então me
permita te amar levemente e sempre, até ver onde isso vai dá
Devagar com
o andor que o santo é de barro e a fonte já teve dias de mais abundância, a
seca castigou e ensinou
Então me
permita abstrair nossos erros e começar novamente
Entenda que
para mim, controlar o tempo sempre foi o mais difícil, saber a hora certa,
acompanhar os seus vícios e não me deixar sucumbi
Recatada e
do lar ela me pinta do avesso e desvenda com um olhar todos os meus segredos,
que nem a mim mesmo permiti libertar
Apaixonar-se
é bom, sinal de vida
Apaixonar-se
duzentas vezes pela mesma pessoa é quase sobre-humano, é pedir demais para esse
cristão suburbano, que pouco tem no que se apegar
É exigir
demais de um coração semântico como o meu e eu preciso me resguardar
A paixão
não tolera abandonos, eu aprendi isso com as sequelas dos verões passados
Então o que
devemos fazer para não despencar de novo, não deixar desandar?
Ah se eu me
permitisse ao luxo de devorar-te novamente, com todo o canibalismo entranhado
em meus dentes, sem em nada titubear...
Moça
bonita de flor no cabelo, devagar e sempre, vai me amando lentamente até tudo se ajeitar
Espera no
tempo, guarda meu corpo e minha alma em tua memória
Porque se
isso for mesmo o que pensamos ser, tudo vai se ajeitar
Te perder
novamente eu já não posso, prefiro deixar de ganhar
Controla a
ânsia e a sede para não ter que controlar o choro e a tristeza de não ter mais você do meu lado para amar Guarda o teu segredo, paga o nosso preço, porque o universo vai recompensar
Fazia calor
e o suor que escaldava meu corpo era prova disso
O cheiro de
protetor solar, o calçamento quente, o desejo por algo gelado que hidratasse os
lábios era igual aquele verão de 1999
Geraldo
Azevedo pronunciara quase profeticamente que haveria uma praça na beira do mar,
num pedaço de qualquer lugar
E o dia
branco se fez, eu estive lá
Vestida com
pouca roupa e adereçada com uma cabeça fervilhante não deixei passar “in albis”
a vista, os sabores, os amores
Eu vivi
cada dia daquele verão como se fosse o último
Mas que
pena que amor de verão nunca vem para ficar
Eu boba,
achando que sabia de tudo, provei o fel da inocência pela primeira vez
As crianças
também podem ser cruéis
Custa-me
acreditar que por pouco não sucumbi à tudo aquilo
Prefiro
lembrar das conversas na varanda, do namoro da rede, do passeio à beira mar
Há uma
infinita esperança atrelada ao amor, que promete que tudo vai dar certo, mesmo
que o óbvio assine o contrário
Sabia que
era amor desde quando permiti morrer ao avistar seus olhos castanhos, desde
quando adormeci minha melanina em sua pálida pele labial
Quando
sofri calada doces mordidas nas costas, a cada enfurecida e inútil discussão
sobre essas coisas de ciúmes
Sabia que vinha
para ficar quando me vi refém dos seus caprichos, do seu anseio, das queixas e
dos enganos
Era amor e
eu já sabia, só não sabia que isso me custaria tanto, custaria tudo, o resto
dos meus dias
Mas por
quem eu seria se não por você?
Sim, era
amor e podíamos ser e viver só da minha metade, poderia ter sido assim até que
você se tocasse daquilo que estava tão à sua disposição
Que tolice!
Amor pode
ser sentido por um só sim, pode estar em um e não no outro, pode tudo, pode
todos, pode ninguém e pode não escolher ser
Você
preferiu não ser
Era demais
Era apenas
amor e era todo seu
Debaixo do
chuveiro, na ponta da cama, no sofá, debaixo da mesa, na calçada entre outras
pessoas, na praia, no mar, era assim, mesmo se fosse só de uma metade
Foi amor na
despedida, na dor, na substituição, no preço pago por sua curiosidade, no
acordar da ilusão de amar só, nas mentiras cretinas, foi amor na paciência, na
quase raiva, na mágoa, foi amor nos inúmeros recomeços
É amor
quando se sente saudade, quando falta o barulho da voz, quando há falta até das
letras, das imensas e confusas correspondências, nas inevitáveis comparações
É amor
imortal quando se transforma em arte, se perpetua mais que a vida humana,
quando é atemporal, quando se imagina como teria sido se não fosse só de um,
fossem dois querendo amar igualmente
Todos os
dias das 17:00 às 19:00 ela se sentia completa
Se
entorpecia de perfume, jogava sobre seu corpo a mais fina seda vermelha e
desfilava sua beleza na calçada da Esperança
Seu coração
se enxia de expectativa no simples tok único do seu telefone, ela sabia quem
era
Amor por
hora marcada
Seu
semblante se enrubescia somente em falar no tal compromisso das 17:00 às 19:00
Todos dias,
hora marcada, amor com validade e garantia
Seu
sotaque, seus enormes e alvejados dentes faziam acreditar que, por duas horas,
existira eternidade
Das lembranças
que tenho da vida, as mais vivas foram ao lado dela, assim como as mais duras,
dolorosas, traiçoeiras, dramáticas
Quando o cheiro
dela se mistura ao meu é capaz de provocar uma solução nano-carbônica, atômica, e a
energia liberada pela fricção frenética dos corpos, pelo encaixe perfeito das
mãos, pela invisível ligação dos
olhos é quase letal... seríamos capazes de implodir o mundo!
De fato,
foi isso mesmo que fizemos com o passar dos anos, implodimos
Ela rir dos
meus dentes, dos meus olhos e rouba minha respiração
Eu a aguardo
falar e guardo a sua feição por frações de segundos, reparando cada traço dessa
matéria orgânica
Morde meu
ombro e eu tenho que bolar as mais absurdas desculpas à sociedade
Ela me fere
intimamente e eu tenho que calar, ninguém entenderia, ninguém nunca entendeu
Sua voz é
tão estridente e suave quanto uma britadeira esculpindo o gelo existente no meu
coração
Tamanha burrice
não lhe cabe, ela sabe, sempre soube, e até ignorou, mas eu seria sempre dela,
para sempre ela, por ela
O que todos
sempre viram, a subserviência, o declínio da posse de si mesmo, a dedicação
serviçal e tudo mais que acompanha minha devoção
Tudo isso
sempre foi dela, é dela Por muito mais que as poucas horas que dure o encontro
Vestiu uma
camisa de flanela vermelho e azul, e por cima dela jogou o antigo casaco de
frio do seu falecido pai
Tomou a
chave da velha Ford 1984 e seguiu em direção à Ballybricken pela R514
Há tempos
que não tomava aquele direção, há tempos que não sofria por ela
No meio do
caminho, como um filme, viu o passado deles, as intermináveis conversas ao pé
da cama, as calorosas brigas, até o pálido semblante de raiva e o trejeito do
seu rosto se contorcendo de frio lhe veio a memória
Há tempos
nada era tão claro como naquele fatídico 15 de janeiro
Taylor
nunca foi um homem fácil, mas também não lhe cabia a arrogância, na verdade, eu
acho que foi mesmo desses desencontros da vida que o separou dela
Dessas
coisas que acontecem sem que a gente perceba e o casal que foi feito para durar
se separa, o amor que foi feito para se eternizar adormece
Me lembro
bem deles dois despertando inveja pela rua, da timidez, potência e da
bipolaridade dela
Lembro do
desafinado Taylor tentando inutilmente ir de encontro a sua natureza enquanto
Dolores, envergonhada, fingia admirar seus dotes musicais
Os homens
são sempre bobos, comentava ela ao meu pé de ouvido
Mas o
protelar dele alimentou os desencontros da vida e o belo casal marcado pelo
destino por um amor descomunal partiu-se ao meio
Ela deixou
a pequena cidade, fez carreira e sucesso, tornou-se conhecida e domou o quanto
pode sua natureza ambígua
Enquanto
ele fez morada no ninho de nascença, mergulhou na sua própria impaciência de
construir o seu próprio caminho
Pobre Taylor,
todos pensavam
Grande
Dolores!
Me disseram
que ele disse ter escutado a voz dela na noite anterior, não sei ao certo se
acredito nessas sandices do povo, não sei se o fato é consistente
Só sei que
chorei a perda dela, sinto saudades, ao tempo que não imaginava estar no lugar
dele nem por um segundo
Mas a vida
tem dessas coisas, desses encontros, desencontros e reencontros
Eu soube
que ele sequer chorou ao saber da partida dela, que parecia mumificado, exceto
pelo rubor da sua pele que apontada um visível desnível da pressão arterial
Ele sempre
foi desses, de não mostrar o que sente, de protelar, até o sofrimento
Taylor,
Taylor, Taylor, perdeu seu grande amor
Ouvi dizer
que, na estrada, no caminho para o reencontro com o corpo dela ele notavelmente
ouvia suas músicas em som consideravelmente alto, pensei comigo, isso nunca foi
coisa dele
Mas, na
altura do 13 da R514 quis o destino novamente mostrar suas garras e lhe deu
outra chance
Contaram
que sua Ford patinou na estrada como um atleta olímpico, houve beleza na sua
partida
Ouviu-se
funebremente a voz de Dolores soprando alto no som do carro que fumaçava de
ponta cabeça, como quem chamava por ele
E o que era
para ser a despedida deles entre planos espirituais tornou-se mais um encontro,
uma nova chance, um reencontro, como essas coisas da vida
Só sei que
sentiremos saudades deles e lembraremos dessa história, cada um contando a sua
versão, cada um com um pedaço que lhe caiba nesse quebra cabeças infindável que
é o amor
Cada peça,
cada minudência, cada afeto e coração partido
Cada
oportunidade perdida, cada palavra calada, cada música e poesia que não foi
declamada
Cada texto
que não foi redigido, cada recado corrompido, cada detalhe esquecido
Que tudo
isso exercitado e protelado por eles nos lembre quão importante é viver o amor