Quem sou eu

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Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.

sábado, 10 de março de 2018

Fica


Perde o sono
Oscila a fome
Sente saudades, todo tempo
Transpira e resfria a mão
Palpita o coração à vista de qualquer coisa que remeta a sua figura
Gela
Borboletas no estômago
Noite em claro
Chama a chama
Ressaca de amor
Pensamento em um só lugar
Passa em frente
Para do lado
Começa o dia esperando, tramando o reencontro
Não se sabe o que fazer
Mas se faz, precisa ser feito
Pira o cabeção
Só pensa nisso
Faz amor em pensamento
Fica perto todo tempo
Quer ficar
Pensa em como seria
Sente medo
De novo
Apego e o cuidado
Grude
Passa o tempo e não passa
Promete
Fica
Separados seriam só palavras
Sempre amor
Unidos, sempre, de novo, contínuo, em marcha
São o infinito
Um sonho bonito
Se é que é isso que se chama amor


Roberta Moura

sexta-feira, 9 de março de 2018

Abstinência

Londres - Abby Road, Dez2016.


Substantivo feminino, ferocidade que devora o corpo e a alma
Falta de si mesmo, de algo, um pedaço, da droga que alimenta e cura
Uma dia é o bastante para provocar a fissura que lhe faz perder a razão
Zanzando no mundo, o viciado segue desorganizado, incompreendido no tempo e espaço
Correndo atrás, rendendo toda atenção ao seu maior prazer
É o símbolo humano do desejo, da falta, da vontade 
É um excesso desnecessário do presente sem se ter
Na seca, procura qualquer coisa que umidifique o ambiente, água gelada é indicado
Mão que esfrega a nuca, que tenta acalmar sozinha o corpo
Mãos suadas e geladas, o corpo entra em ebulição interna, é o que a falta faz
Pressiona o corpo em determinada medida procurando acertar, tenta aliviar a pressão, tenta imitar
Jamais encontrará a precisão, tudo isso em vão 
Nada substitui o objeto, o vício, a coisa, o sentido, a pessoa
Resta um chamado vazio e particular
Uma saudade descomunal, resta o inconformismo
É ter grades invisíveis e muros feitos para serem pulados, com tudo o que interessa do outro lado 
Extremamente particular, íntimo, delicado, palpável e pessoal
Resta a curiosidade se é assim só para uma das partes
Resta ao viciado a espera, a cura, a dor, a secura e o desejo
Tem que haver um jeito, tem que haver saída, tem que valer a pena tudo isso
Tem que dar certo, que sarar, que normalizar
Tem que ter medida, um caminho que evite a overdose, mais um final


Roberta Moura


quarta-feira, 7 de março de 2018

Ilegais

Rio Tinto - mar2018

Para um homem como eu, esse sentimento nunca será lecionável, questionável
Faz tempo deixei de tentar entender
Prefiro doses homeopáticas que a abstinência, que a overdose que é te amar
Toma meus poros e todo o resto de pudor que ainda guardo
Me guarda em teu colo, em teus peitos, no cangote, me adote, porque eu quero me aninhar
Na fragilidade de quem ama, na altura do meu grau, de repente o doce pode se por amargo
Arriscado demais perder pela milésima vez quem nunca se foi
Então me permita te amar levemente e sempre, até ver onde isso vai dá
Devagar com o andor que o santo é de barro e a fonte já teve dias de mais abundância, a seca castigou e ensinou
Então me permita abstrair nossos erros e começar novamente
Entenda que para mim, controlar o tempo sempre foi o mais difícil, saber a hora certa, acompanhar os seus vícios e não me deixar sucumbi
Recatada e do lar ela me pinta do avesso e desvenda com um olhar todos os meus segredos, que nem a mim mesmo permiti libertar
Apaixonar-se é bom, sinal de vida
Apaixonar-se duzentas vezes pela mesma pessoa é quase sobre-humano, é pedir demais para esse cristão suburbano, que pouco tem no que se apegar
É exigir demais de um coração semântico como o meu e eu preciso me resguardar
A paixão não tolera abandonos, eu aprendi isso com as sequelas dos verões passados
Então o que devemos fazer para não despencar de novo, não deixar desandar?
Ah se eu me permitisse ao luxo de devorar-te novamente, com todo o canibalismo entranhado em meus dentes, sem em nada titubear...
Moça bonita de flor no cabelo, devagar e sempre, vai me amando lentamente até tudo se ajeitar
Espera no tempo, guarda meu corpo e minha alma em tua memória
Porque se isso for mesmo o que pensamos ser, tudo vai se ajeitar
Te perder novamente eu já não posso, prefiro deixar de ganhar
Controla a ânsia e a sede para não ter que controlar o choro e a tristeza de não ter  mais você do meu lado para amar
Guarda o teu segredo, paga o nosso preço, porque o universo vai recompensar

Roberta Moura




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Calor




Fazia calor e o suor que escaldava meu corpo era prova disso
O cheiro de protetor solar, o calçamento quente, o desejo por algo gelado que hidratasse os lábios era igual aquele verão de 1999
Geraldo Azevedo pronunciara quase profeticamente que haveria uma praça na beira do mar, num pedaço de qualquer lugar
E o dia branco se fez, eu estive lá
Vestida com pouca roupa e adereçada com uma cabeça fervilhante não deixei passar “in albis” a vista, os sabores, os amores
Eu vivi cada dia daquele verão como se fosse o último
Mas que pena que amor de verão nunca vem para ficar
Eu boba, achando que sabia de tudo, provei o fel da inocência pela primeira vez
As crianças também podem ser cruéis
Custa-me acreditar que por pouco não sucumbi à tudo aquilo
Prefiro lembrar das conversas na varanda, do namoro da rede, do passeio à beira mar
Há uma infinita esperança atrelada ao amor, que promete que tudo vai dar certo, mesmo que o óbvio assine o contrário
Sabia que era amor desde quando permiti morrer ao avistar seus olhos castanhos, desde quando adormeci minha melanina em sua pálida pele labial
Quando sofri calada doces mordidas nas costas, a cada enfurecida e inútil discussão sobre essas coisas de ciúmes
Sabia que vinha para ficar quando me vi refém dos seus caprichos, do seu anseio, das queixas e dos enganos
Era amor e eu já sabia, só não sabia que isso me custaria tanto, custaria tudo, o resto dos meus dias
Mas por quem eu seria se não por você?
Sim, era amor e podíamos ser e viver só da minha metade, poderia ter sido assim até que você se tocasse daquilo que estava tão à sua disposição
Que tolice!
Amor pode ser sentido por um só sim, pode estar em um e não no outro, pode tudo, pode todos, pode ninguém e pode não escolher ser
Você preferiu não ser
Era demais
Era apenas amor e era todo seu
Debaixo do chuveiro, na ponta da cama, no sofá, debaixo da mesa, na calçada entre outras pessoas, na praia, no mar, era assim, mesmo se fosse só de uma metade
Foi amor na despedida, na dor, na substituição, no preço pago por sua curiosidade, no acordar da ilusão de amar só, nas mentiras cretinas, foi amor na paciência, na quase raiva, na mágoa, foi amor nos inúmeros recomeços
É amor quando se sente saudade, quando falta o barulho da voz, quando há falta até das letras, das imensas e confusas correspondências, nas inevitáveis comparações
É amor imortal quando se transforma em arte, se perpetua mais que a vida humana, quando é atemporal, quando se imagina como teria sido se não fosse só de um, fossem dois querendo amar igualmente


Roberta Moura 



Ela era francesa

Paris, Dez16.

Todos os dias das 17:00 às 19:00 ela se sentia completa
Se entorpecia de perfume, jogava sobre seu corpo a mais fina seda vermelha e desfilava sua beleza na calçada da Esperança
Seu coração se enxia de expectativa no simples tok único do seu telefone, ela sabia quem era  
Amor por hora marcada
Seu semblante se enrubescia somente em falar no tal compromisso das 17:00 às 19:00
Todos dias, hora marcada, amor com validade e garantia
Seu sotaque, seus enormes e alvejados dentes faziam acreditar que, por duas horas, existira eternidade
Das lembranças que tenho da vida, as mais vivas foram ao lado dela, assim como as mais duras, dolorosas, traiçoeiras, dramáticas
Quando o cheiro dela se mistura ao meu é capaz de provocar uma solução nano-carbônica, atômica, e a energia liberada pela fricção frenética dos corpos, pelo encaixe perfeito das mãos,  pela invisível ligação dos olhos é quase letal... seríamos capazes de implodir o mundo!
De fato, foi isso mesmo que fizemos com o passar dos anos, implodimos
Ela rir dos meus dentes, dos meus olhos e rouba minha respiração
Eu a aguardo falar e guardo a sua feição por frações de segundos, reparando cada traço dessa matéria orgânica
Morde meu ombro e eu tenho que bolar as mais absurdas desculpas à sociedade
Ela me fere intimamente e eu tenho que calar, ninguém entenderia, ninguém nunca entendeu
Sua voz é tão estridente e suave quanto uma britadeira esculpindo o gelo existente no meu coração
Tamanha burrice não lhe cabe, ela sabe, sempre soube, e até ignorou, mas eu seria sempre dela, para sempre ela, por ela
O que todos sempre viram, a subserviência, o declínio da posse de si mesmo, a dedicação serviçal e tudo mais que acompanha minha devoção
Tudo isso sempre foi dela, é dela
Por muito mais que as poucas horas que dure o encontro


Roberta Moura





Estou amor

Recife - PE, 03fev18.


Hoje estou daquele jeito
De um jeito muito suscetível aos seus encantos, disponível, fácil
Hoje, novamente, estou muito mais você que  eu
Estou em espera, demorada, distante de mim e perto disso que chamo de amor, que me põe sempre em suas mãos
Como uma mãe está disposta ao filho, como o passarinho está ao ar, como a terra está à semente e as raizes
Estou assim, mais você que eu
Hoje estou amor!
Pronta para os seus caprichos, para a sua preguiça, para o seu amor remansoso e demorado
Estou à sua vontade e disposição
Esperando um aceno para cair matando, esperando um beijo encarnar minha boca, esperando você
Mas você demora demais, pensa demais, dorme demais, chora demais, esmorece demais
E eu fico aqui, ligada em 220 volts, tremendo de saudades, velando a sua ausência preguiçosa
E se eu dormir também?
...Passaremos a nos ver apenas nos sonhos? 
De novo?
E se eu acordar desse estado lerdo de amor?
Esquecerei você?
Despertarei novamente à disponibilidade de um amor vadio qualquer?
Que perca de tempo e de vida essa de nós dois...
Que lerdeza...


Roberta Moura


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Taylor

Roma, Janeiro de 2017.

Vestiu uma camisa de flanela vermelho e azul, e por cima dela jogou o antigo casaco de frio do seu falecido pai
Tomou a chave da velha Ford 1984 e seguiu em direção à  Ballybricken pela R514
Há tempos que não tomava aquele direção, há tempos que não sofria por ela
No meio do caminho, como um filme, viu o passado deles, as intermináveis conversas ao pé da cama, as calorosas brigas, até o pálido semblante de raiva e o trejeito do seu rosto se contorcendo de frio lhe veio a memória
Há tempos nada era tão claro como naquele fatídico 15 de janeiro
Taylor nunca foi um homem fácil, mas também não lhe cabia a arrogância, na verdade, eu acho que foi mesmo desses desencontros da vida que o separou dela
Dessas coisas que acontecem sem que a gente perceba e o casal que foi feito para durar se separa, o amor que foi feito para se eternizar adormece
Me lembro bem deles dois despertando inveja pela rua, da timidez, potência e da bipolaridade dela
Lembro do desafinado Taylor tentando inutilmente ir de encontro a sua natureza enquanto Dolores, envergonhada, fingia admirar seus dotes musicais
Os homens são sempre bobos, comentava ela ao meu pé de ouvido
Mas o protelar dele alimentou os desencontros da vida e o belo casal marcado pelo destino por um amor descomunal partiu-se ao meio
Ela deixou a pequena cidade, fez carreira e sucesso, tornou-se conhecida e domou o quanto pode sua natureza ambígua
Enquanto ele fez morada no ninho de nascença, mergulhou na sua própria impaciência de construir o seu próprio caminho
Pobre Taylor, todos pensavam
Grande Dolores!
Me disseram que ele disse ter escutado a voz dela na noite anterior, não sei ao certo se acredito nessas sandices do povo, não sei se o fato é consistente
Só sei que chorei a perda dela, sinto saudades, ao tempo que não imaginava estar no lugar dele nem por um segundo
Mas a vida tem dessas coisas, desses encontros, desencontros e reencontros
Eu soube que ele sequer chorou ao saber da partida dela, que parecia mumificado, exceto pelo rubor da sua pele que apontada um visível desnível da pressão arterial
Ele sempre foi desses, de não mostrar o que sente, de protelar, até o sofrimento
Taylor, Taylor, Taylor, perdeu seu grande amor
Ouvi dizer que, na estrada, no caminho para o reencontro com o corpo dela ele notavelmente ouvia suas músicas em som consideravelmente alto, pensei comigo, isso nunca foi coisa dele
Mas, na altura do 13 da R514 quis o destino novamente mostrar suas garras e lhe deu outra chance
Contaram que sua Ford patinou na estrada como um atleta olímpico, houve beleza na sua partida
Ouviu-se funebremente a voz de Dolores soprando alto no som do carro que fumaçava de ponta cabeça, como quem chamava por ele
E o que era para ser a despedida deles entre planos espirituais tornou-se mais um encontro, uma nova chance, um reencontro, como essas coisas da vida        
Só sei que sentiremos saudades deles e lembraremos dessa história, cada um contando a sua versão, cada um com um pedaço que lhe caiba nesse quebra cabeças infindável que é o amor
Cada peça, cada minudência, cada afeto e coração partido
Cada oportunidade perdida, cada palavra calada, cada música e poesia que não foi declamada
Cada texto que não foi redigido, cada recado corrompido, cada detalhe esquecido
Que tudo isso exercitado e protelado por eles nos lembre quão importante é viver o amor


Roberta Moura