Quem sou eu

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Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.

terça-feira, 13 de março de 2018

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Eu te sigo e você me segue
Nos encontramos onde ninguém nos acha
Eu te sigo e você me segue, desde sempre assim
Faz parecer fácil o abismo que nos circunda
Segura a minha mão, lê os meus olhos, toca a minha cintura
Não quero flores mortas como presentes, mas beijos vivos
Quero que me siga como eu faço
Eu te sigo e você me segue
Nesse emaranhado de problemas e sentimentos nos achamos, sempre
Faz o que ninguém mais faz, deita no meu peito, esse é seu lugar
Acorda do meu lado, de bom ou mau humor
Sou seu namorado, refém dos seus caprichos
Faz de conta que nada mudou, que ainda somos os mesmos
Sem ataduras na boca que nos impeça de dizer o que pensamos, o que sentimos
Seja para mim o que sou para você, um amor sem ponto final
Sem cobranças, sem exclamações, sem interrogações
Deixa tudo isso passar, deixa todos os pensamentos tortos pra lá
Faz de mim o que sempre fiz de você, uma reticências enigmática, silenciosa e viva
Me segue que eu te sigo
Deitada na rede, no carro, na rua
Tudo o que precisamos é de nós, mais nada
Me procura que eu te acho
Se enrola em mim e gruda
Alcançaremos o céu, esse é o nosso único limite

Roberta Moura







segunda-feira, 12 de março de 2018

Pode o que poderia




Poderia ser minha mãe, meu pai, minha namorada
Poderia ser meu marido, minha esposa, meu homem
Poderia ser a minha mulher, o meu primeiro e único amor
Poderia ser meu caso, minha concubina, minha charada, meu caos
Poderia ser minha esfinge, meu segredo mais profundo, meu querer
Poderia ser meu cotidiano, pai dos meus filhos, meu sobrenome
Poderia ser minha imoralidade, meu calcanhar de Aquiles, minha fraqueza
Poderia ser Romeu e Julieta dos dias modernos, poderia não ser nada disso
Poderia ser meu príncipe e eu proletariado, poderia ser aceitável
Poderia ser um casal, casar de véu e grinalda, poderia se divorciar
Poderia ser oficial, dar certo ou dar muito errado
Poderia ser menos frágil, menos surrado, mais corajoso
Poderia ser meu brinquedo, minha fantasia, meu algoz
Poderia ser meu mestre e eu masoquista, poderia ser um par
Poderia ser menos complicado, mais simples, mais fácil
Poderia ser questão de escolha, uma troca significativa, poderia abandonar tudo
Poderia ser ignorado, abandonado, sofrer calado e se arriscar a sentir falta
Poderia recomeçar do zero, matar do coração toda a cidade, assassinar os outros amores
Poderia fazer um estrago danado, poderia talvez simplificar
Mas essa coisa nasceu para o bem e não para o mal
Nada disso impede de existir, de resistir, não deixa de ser o que é 
Quis o destino que não fosse nada disso e tudo isso
Quis o destino que fosse a menor das palavras e também a mais forte
Chamo de amor, assim por ele também sou chamada e isso basta para definir algo tão intangível, singular, inédito e mais forte que todas as nomenclaturas, títulos e rótulos
E a gente descobre que pode ser tudo isso e mais um pouco, que é para o outro todos os significados, o que importa é poder ser e é, o tudo

Roberta Moura



domingo, 11 de março de 2018

Aquelas mãos



Naquela tarde sentou-se ao meu lado
Parecia que não tinha feito uma eternidade desde o último adeus
Mãos que se procuravam, olhos que se desencontravam propositalmente para não se entregarem
Muito clichê, tão manifesto
Parecia não ter havido um abismo, aprecia nunca ter duvidado
Foi assim
Mãos que se tocavam esporadicamente, intuitivamente, conscientemente provocadas
Toque na pele, tortura na alma, todo torpor
O desejo, o carinho, a posse, o cuidado
Ah, é o amor!
Pareciam nunca terem ido embora, nunca foi
Mãos que se encaixam, que suam, que saciam, que alcançam, que tocam
Provoca meu coração, que o provoco a aspiração
Aquele que desperta coisas entre meu cérebro e ventre, sobre as quais não tenho controle
Um amor sem tamanho, sem prazo de validade, sem pudor
Escondido e entrelaçado pelo balé das mãos o amor desenha o momento
Se pegam escondidas, se agarram
Encostam, transpiram, refletem os olhos, a alma
Mãos orgásmicas de satisfação, que querem ficar
Toca minha perna, me morde no pensamento
Eu te desenho em todas as nuances à meu modo
Vamos juntos ao delírio de se querer bem, de querer quem te quer
Mãos silenciosas, carentes, indecentes
Aspira tudo em mim e me conta todos os seus segredos
Todos eles!
Saiba que sou tua, sempre tua, toda tua
Naquela tarde fomos felizes, já era sem tempo de ser
De ter por perto, por fora, por dentro, de volta para mim
  

Roberta Moura



sábado, 10 de março de 2018

Fica


Perde o sono
Oscila a fome
Sente saudades, todo tempo
Transpira e resfria a mão
Palpita o coração à vista de qualquer coisa que remeta a sua figura
Gela
Borboletas no estômago
Noite em claro
Chama a chama
Ressaca de amor
Pensamento em um só lugar
Passa em frente
Para do lado
Começa o dia esperando, tramando o reencontro
Não se sabe o que fazer
Mas se faz, precisa ser feito
Pira o cabeção
Só pensa nisso
Faz amor em pensamento
Fica perto todo tempo
Quer ficar
Pensa em como seria
Sente medo
De novo
Apego e o cuidado
Grude
Passa o tempo e não passa
Promete
Fica
Separados seriam só palavras
Sempre amor
Unidos, sempre, de novo, contínuo, em marcha
São o infinito
Um sonho bonito
Se é que é isso que se chama amor


Roberta Moura

sexta-feira, 9 de março de 2018

Abstinência

Londres - Abby Road, Dez2016.


Substantivo feminino, ferocidade que devora o corpo e a alma
Falta de si mesmo, de algo, um pedaço, da droga que alimenta e cura
Uma dia é o bastante para provocar a fissura que lhe faz perder a razão
Zanzando no mundo, o viciado segue desorganizado, incompreendido no tempo e espaço
Correndo atrás, rendendo toda atenção ao seu maior prazer
É o símbolo humano do desejo, da falta, da vontade 
É um excesso desnecessário do presente sem se ter
Na seca, procura qualquer coisa que umidifique o ambiente, água gelada é indicado
Mão que esfrega a nuca, que tenta acalmar sozinha o corpo
Mãos suadas e geladas, o corpo entra em ebulição interna, é o que a falta faz
Pressiona o corpo em determinada medida procurando acertar, tenta aliviar a pressão, tenta imitar
Jamais encontrará a precisão, tudo isso em vão 
Nada substitui o objeto, o vício, a coisa, o sentido, a pessoa
Resta um chamado vazio e particular
Uma saudade descomunal, resta o inconformismo
É ter grades invisíveis e muros feitos para serem pulados, com tudo o que interessa do outro lado 
Extremamente particular, íntimo, delicado, palpável e pessoal
Resta a curiosidade se é assim só para uma das partes
Resta ao viciado a espera, a cura, a dor, a secura e o desejo
Tem que haver um jeito, tem que haver saída, tem que valer a pena tudo isso
Tem que dar certo, que sarar, que normalizar
Tem que ter medida, um caminho que evite a overdose, mais um final


Roberta Moura


quarta-feira, 7 de março de 2018

Ilegais

Rio Tinto - mar2018

Para um homem como eu, esse sentimento nunca será lecionável, questionável
Faz tempo deixei de tentar entender
Prefiro doses homeopáticas que a abstinência, que a overdose que é te amar
Toma meus poros e todo o resto de pudor que ainda guardo
Me guarda em teu colo, em teus peitos, no cangote, me adote, porque eu quero me aninhar
Na fragilidade de quem ama, na altura do meu grau, de repente o doce pode se por amargo
Arriscado demais perder pela milésima vez quem nunca se foi
Então me permita te amar levemente e sempre, até ver onde isso vai dá
Devagar com o andor que o santo é de barro e a fonte já teve dias de mais abundância, a seca castigou e ensinou
Então me permita abstrair nossos erros e começar novamente
Entenda que para mim, controlar o tempo sempre foi o mais difícil, saber a hora certa, acompanhar os seus vícios e não me deixar sucumbi
Recatada e do lar ela me pinta do avesso e desvenda com um olhar todos os meus segredos, que nem a mim mesmo permiti libertar
Apaixonar-se é bom, sinal de vida
Apaixonar-se duzentas vezes pela mesma pessoa é quase sobre-humano, é pedir demais para esse cristão suburbano, que pouco tem no que se apegar
É exigir demais de um coração semântico como o meu e eu preciso me resguardar
A paixão não tolera abandonos, eu aprendi isso com as sequelas dos verões passados
Então o que devemos fazer para não despencar de novo, não deixar desandar?
Ah se eu me permitisse ao luxo de devorar-te novamente, com todo o canibalismo entranhado em meus dentes, sem em nada titubear...
Moça bonita de flor no cabelo, devagar e sempre, vai me amando lentamente até tudo se ajeitar
Espera no tempo, guarda meu corpo e minha alma em tua memória
Porque se isso for mesmo o que pensamos ser, tudo vai se ajeitar
Te perder novamente eu já não posso, prefiro deixar de ganhar
Controla a ânsia e a sede para não ter que controlar o choro e a tristeza de não ter  mais você do meu lado para amar
Guarda o teu segredo, paga o nosso preço, porque o universo vai recompensar

Roberta Moura




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Calor




Fazia calor e o suor que escaldava meu corpo era prova disso
O cheiro de protetor solar, o calçamento quente, o desejo por algo gelado que hidratasse os lábios era igual aquele verão de 1999
Geraldo Azevedo pronunciara quase profeticamente que haveria uma praça na beira do mar, num pedaço de qualquer lugar
E o dia branco se fez, eu estive lá
Vestida com pouca roupa e adereçada com uma cabeça fervilhante não deixei passar “in albis” a vista, os sabores, os amores
Eu vivi cada dia daquele verão como se fosse o último
Mas que pena que amor de verão nunca vem para ficar
Eu boba, achando que sabia de tudo, provei o fel da inocência pela primeira vez
As crianças também podem ser cruéis
Custa-me acreditar que por pouco não sucumbi à tudo aquilo
Prefiro lembrar das conversas na varanda, do namoro da rede, do passeio à beira mar
Há uma infinita esperança atrelada ao amor, que promete que tudo vai dar certo, mesmo que o óbvio assine o contrário
Sabia que era amor desde quando permiti morrer ao avistar seus olhos castanhos, desde quando adormeci minha melanina em sua pálida pele labial
Quando sofri calada doces mordidas nas costas, a cada enfurecida e inútil discussão sobre essas coisas de ciúmes
Sabia que vinha para ficar quando me vi refém dos seus caprichos, do seu anseio, das queixas e dos enganos
Era amor e eu já sabia, só não sabia que isso me custaria tanto, custaria tudo, o resto dos meus dias
Mas por quem eu seria se não por você?
Sim, era amor e podíamos ser e viver só da minha metade, poderia ter sido assim até que você se tocasse daquilo que estava tão à sua disposição
Que tolice!
Amor pode ser sentido por um só sim, pode estar em um e não no outro, pode tudo, pode todos, pode ninguém e pode não escolher ser
Você preferiu não ser
Era demais
Era apenas amor e era todo seu
Debaixo do chuveiro, na ponta da cama, no sofá, debaixo da mesa, na calçada entre outras pessoas, na praia, no mar, era assim, mesmo se fosse só de uma metade
Foi amor na despedida, na dor, na substituição, no preço pago por sua curiosidade, no acordar da ilusão de amar só, nas mentiras cretinas, foi amor na paciência, na quase raiva, na mágoa, foi amor nos inúmeros recomeços
É amor quando se sente saudade, quando falta o barulho da voz, quando há falta até das letras, das imensas e confusas correspondências, nas inevitáveis comparações
É amor imortal quando se transforma em arte, se perpetua mais que a vida humana, quando é atemporal, quando se imagina como teria sido se não fosse só de um, fossem dois querendo amar igualmente


Roberta Moura