Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.
Poderia ser a minha mulher, o meu primeiro e único amor
Poderia ser meu caso, minha concubina, minha charada, meu caos
Poderia ser minha esfinge, meu segredo mais profundo, meu querer
Poderia ser meu cotidiano, pai dos meus filhos, meu sobrenome
Poderia ser minha imoralidade, meu calcanhar de Aquiles, minha fraqueza
Poderia ser Romeu e Julieta dos dias modernos, poderia não ser nada
disso
Poderia ser meu príncipe e eu proletariado, poderia ser aceitável
Poderia ser um casal, casar de véu e grinalda, poderia se divorciar
Poderia ser oficial, dar certo ou dar muito errado
Poderia ser menos frágil, menos surrado, mais corajoso
Poderia ser meu brinquedo, minha fantasia, meu algoz
Poderia ser meu mestre e eu masoquista, poderia ser um par
Poderia ser menos complicado, mais simples, mais fácil
Poderia ser questão de escolha, uma troca significativa, poderia
abandonar tudo
Poderia ser ignorado, abandonado, sofrer calado e se arriscar a sentir
falta
Poderia recomeçar do zero, matar do coração toda a cidade, assassinar os
outros amores
Poderia fazer um estrago danado, poderia talvez simplificar
Mas essa coisa nasceu para o bem e não para o mal
Nada disso impede de existir, de resistir, não deixa de ser o que é
Quis o destino que não fosse nada disso e tudo isso
Quis o destino que fosse a menor das palavras e também a mais forte
Chamo de amor, assim por ele também sou chamada e isso basta para
definir algo tão intangível, singular, inédito e mais forte que todas as
nomenclaturas, títulos e rótulos
E a gente descobre que pode ser tudo isso e mais um pouco, que é para o outro todos os significados, o que importa é poder ser e é, o tudo
Para um
homem como eu, esse sentimento nunca será lecionável, questionável Faz tempo deixei de tentar entender
Prefiro
doses homeopáticas que a abstinência, que a overdose que é te amar
Toma meus
poros e todo o resto de pudor que ainda guardo
Me guarda
em teu colo, em teus peitos, no cangote, me adote, porque eu quero me aninhar
Na
fragilidade de quem ama, na altura do meu grau, de repente o doce pode se por
amargo
Arriscado
demais perder pela milésima vez quem nunca se foi
Então me
permita te amar levemente e sempre, até ver onde isso vai dá
Devagar com
o andor que o santo é de barro e a fonte já teve dias de mais abundância, a
seca castigou e ensinou
Então me
permita abstrair nossos erros e começar novamente
Entenda que
para mim, controlar o tempo sempre foi o mais difícil, saber a hora certa,
acompanhar os seus vícios e não me deixar sucumbi
Recatada e
do lar ela me pinta do avesso e desvenda com um olhar todos os meus segredos,
que nem a mim mesmo permiti libertar
Apaixonar-se
é bom, sinal de vida
Apaixonar-se
duzentas vezes pela mesma pessoa é quase sobre-humano, é pedir demais para esse
cristão suburbano, que pouco tem no que se apegar
É exigir
demais de um coração semântico como o meu e eu preciso me resguardar
A paixão
não tolera abandonos, eu aprendi isso com as sequelas dos verões passados
Então o que
devemos fazer para não despencar de novo, não deixar desandar?
Ah se eu me
permitisse ao luxo de devorar-te novamente, com todo o canibalismo entranhado
em meus dentes, sem em nada titubear...
Moça
bonita de flor no cabelo, devagar e sempre, vai me amando lentamente até tudo se ajeitar
Espera no
tempo, guarda meu corpo e minha alma em tua memória
Porque se
isso for mesmo o que pensamos ser, tudo vai se ajeitar
Te perder
novamente eu já não posso, prefiro deixar de ganhar
Controla a
ânsia e a sede para não ter que controlar o choro e a tristeza de não ter mais você do meu lado para amar Guarda o teu segredo, paga o nosso preço, porque o universo vai recompensar