Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.
Vestiu uma
camisa de flanela vermelho e azul, e por cima dela jogou o antigo casaco de
frio do seu falecido pai
Tomou a
chave da velha Ford 1984 e seguiu em direção à Ballybricken pela R514
Há tempos
que não tomava aquele direção, há tempos que não sofria por ela
No meio do
caminho, como um filme, viu o passado deles, as intermináveis conversas ao pé
da cama, as calorosas brigas, até o pálido semblante de raiva e o trejeito do
seu rosto se contorcendo de frio lhe veio a memória
Há tempos
nada era tão claro como naquele fatídico 15 de janeiro
Taylor
nunca foi um homem fácil, mas também não lhe cabia a arrogância, na verdade, eu
acho que foi mesmo desses desencontros da vida que o separou dela
Dessas
coisas que acontecem sem que a gente perceba e o casal que foi feito para durar
se separa, o amor que foi feito para se eternizar adormece
Me lembro
bem deles dois despertando inveja pela rua, da timidez, potência e da
bipolaridade dela
Lembro do
desafinado Taylor tentando inutilmente ir de encontro a sua natureza enquanto
Dolores, envergonhada, fingia admirar seus dotes musicais
Os homens
são sempre bobos, comentava ela ao meu pé de ouvido
Mas o
protelar dele alimentou os desencontros da vida e o belo casal marcado pelo
destino por um amor descomunal partiu-se ao meio
Ela deixou
a pequena cidade, fez carreira e sucesso, tornou-se conhecida e domou o quanto
pode sua natureza ambígua
Enquanto
ele fez morada no ninho de nascença, mergulhou na sua própria impaciência de
construir o seu próprio caminho
Pobre Taylor,
todos pensavam
Grande
Dolores!
Me disseram
que ele disse ter escutado a voz dela na noite anterior, não sei ao certo se
acredito nessas sandices do povo, não sei se o fato é consistente
Só sei que
chorei a perda dela, sinto saudades, ao tempo que não imaginava estar no lugar
dele nem por um segundo
Mas a vida
tem dessas coisas, desses encontros, desencontros e reencontros
Eu soube
que ele sequer chorou ao saber da partida dela, que parecia mumificado, exceto
pelo rubor da sua pele que apontada um visível desnível da pressão arterial
Ele sempre
foi desses, de não mostrar o que sente, de protelar, até o sofrimento
Taylor,
Taylor, Taylor, perdeu seu grande amor
Ouvi dizer
que, na estrada, no caminho para o reencontro com o corpo dela ele notavelmente
ouvia suas músicas em som consideravelmente alto, pensei comigo, isso nunca foi
coisa dele
Mas, na
altura do 13 da R514 quis o destino novamente mostrar suas garras e lhe deu
outra chance
Contaram
que sua Ford patinou na estrada como um atleta olímpico, houve beleza na sua
partida
Ouviu-se
funebremente a voz de Dolores soprando alto no som do carro que fumaçava de
ponta cabeça, como quem chamava por ele
E o que era
para ser a despedida deles entre planos espirituais tornou-se mais um encontro,
uma nova chance, um reencontro, como essas coisas da vida
Só sei que
sentiremos saudades deles e lembraremos dessa história, cada um contando a sua
versão, cada um com um pedaço que lhe caiba nesse quebra cabeças infindável que
é o amor
Cada peça,
cada minudência, cada afeto e coração partido
Cada
oportunidade perdida, cada palavra calada, cada música e poesia que não foi
declamada
Cada texto
que não foi redigido, cada recado corrompido, cada detalhe esquecido
Que tudo
isso exercitado e protelado por eles nos lembre quão importante é viver o amor
Gastar
caneta e papel em homenagem à inspiração que é amar
Escrevo
palavras tortas em papel dourado e o retilíneo que explicam meus pensamentos tortos
Eles não consoam
com a minha ansiedade
Estou quase
morrendo de amor, mas não deixarei herdeiros
Faço música
e arte para não enlouquecer durante esse caminho
É de uma
avidez gritante passar a vida buscando um corpo que se pareça com o seu, que se encaixe
Caçando uma
vida que não é sua, que não compartilha da sua presença, que é tão sem você
Tentando
fingir o que não pode ser, a vida me coloca em frente à um precipício de
incertezas
Frustração
aguda e gratuita!
As letras
não me obedecem, mas mesmo assim a junção ainda é meu mais válido antidepressivo
Para um
coração semântico tanto faz um coração meio cheio ou meio vazio de amor
Letras
hábeis, difícil sentido, amor corrompido, segue o labirinto da ilusão Logo eu... de amor de botas batidas? de correr tanto? Me vejo pregada no tempo, ferroada nas costas pela sentimentalidade
Pouca noite
para muitos sonhos, coisas da madrugada
Copo de
água para assustar o pesadelo, não traz de volta o amor em sete dias, não
arranca a tristeza, nem leva embora a desilusão
Quando ela
cola os seus olhos sobre o meu evito respirar para não perder uma só fração de
segundo desse momento mágico
Basta um
toque sobre minha mão, basta uma palavra para me mudar o rumo do dia
Um beijo é
como um afago na alma
O meu
coração pulsa as cores que roubei do seu sorriso
O frio na
espinha, o desejo, o amor...
Não entendo
como tudo isso cabe naquele frasco azul de perfume que guardo com cuidado na
prateleira da alma
Tanto tempo
se passou e eu ainda vejo seu jeito de menina por trás desse semblante de
mulher
Poderia
carrega-la na garupa da minha bicicleta vermelha e passear por toda a cidade sem me
cansar as pernas, movida pela endorfina provocada pelo enlace dos seus braços
na minha cintura
Poderia
reescrever a história só contanto as coisas boas, para que fique eternamente
gravada na memória e jamais nos faça duvidar do nosso objetivo em comum
Ah! Eu
poderia dizer que a amo todos os dias se isso bastasse, se fosse o
suficiente...
Mas a vida
compartilhada é o maior do presente que alguém já pode dar à outro
Os momentos
de fraqueza, a loucura do cotidiano, a insanidade da ansiedade, isso ninguém vê
além de mim
Gosto do
gosto, do gasto
Do jeito
que a mão toca a minha mão
Do cheiro
de cama, do olhar procurando o meu
Nela vejo poesia
O horizonte
foi o lugar que o sol escolheu para beijar o mar ao amanhecer e foi lá onde nos
encontramos pela primeira vez
Como uma
linha tão tênue pode esconder tamanha intimidade?
Como pode
decifrar e unificar o que há dentro de mim e de você?
Essa
jornada seguirá ao seu encontro, circulando, construindo o legado e renovando o
amor
A neblina
tênue que cai do lado de fora da janela da cozinha anuncia a neve que está por
vir
Não sabe
nada de frio esse truque da natureza em transformar água em vapor e em flocos
Não sabe
nada de solidão, nem do gélido iceberg que carrego no peito depois de tantos
anos
Desde
aquele caloroso 13 de março comecei a contar os dias do modo contrário,
revertendo o tempo para não enlouquecer de saudade
Dentro
desse cubículo de dois cômodo em Amsterdã vejo a vida passar por essa única
janela
Vejo o sol
lutando contra a névoa querendo aparecer de vez em quando, quando convém, o que
não é o suficiente para mim
Não me
convenço com os jovens de hoje, que dissipam suas vidas e tristezas trocando likes e confessando mentidas por uma
tela ainda menor que minha vidraça
Que
desperdício de vida!
Sinto
saudades dela, não me nego a vontade de sonhar
O charuto
entrelaçado nos dedos da minha mão esquerda poderia ser dividido com outra
boca, com quem também dividisse comigo a morte lenta que ele me provoca
Passou-se
tanto tempo, tantos quilômetros, tantas outras vidas, idas, chegadas e
partidas, que por vezes não sei mais quem sou
Somente a
carga dos anos, meus cabelos brancos, e essa barba platinada que insiste
crescer desenham em mim as marcas do tempo que passa vagaroso sem o seu olhar
Minha vaidade teria vergonha que me visse assim, desenhado nas dobras do meu corpo pelo pincel das horas e dias que não tardam em passar
Cai sobre
os meus ombros o peso de não ter contato a ela todos os dias o quanto era
preciosa, o quanto o ar que ela inspirava, respirava e transpirava me fazia bem
Que
decadência, somente um chá pode aquecer esse velho coração que insiste em bater
e retarda ainda mais nosso reencontro
Dizem que
existe beleza na morte, na pouca sorte
No homem
que, traído, mal diz o amor
Na vela que
queima a oração, na dor
Dizem que
existe beleza em tudo
Que existe
beleza na despedida, nas lágrimas sofridas de quem fica, na tristeza de quem
não lhe rendeu a devida atenção em vida
Não consigo
enxergar...
Pois para
um sujeito como eu, tudo em que se baseou a vida se mostrou mortal, não há como
ser diferente, eis aqui alguém na lama da tristeza
Sentada na beirada da cabeceira da Pont des Arts esperava que a vida
passasse breve, que chegasse o verão em meu coração, esperava os trópicos
Ao levantar o queixo à esquerda percebo a sua vinda, vestindo vermelho
e preto
E ele está acompanhado de todo o calor pertinente à sua existência, à
sua natureza
Arrisco três palavras do meu lamentável francês e a receptividade é
imediata, tanto quanto o sorriso tranquilo que mistifica a empatia e o flerte
Aquela dentição perfeita me conquistou como propaganda de creme dental
Nossa, clichê novamente ?!
O rubor da minha pela já não era de frio
Tudo começou à beira daquele rio
Xícaras de café e arte barata às margens do Sena figuravam como a
moldura perfeita para aquele ensaio
A lenta caminhada cujo ritmo cadenciávamos conforme o tempo que desejávamos
estar juntos é suspensa pelo encontro dos nossos lábios
Que lábio...
Feitos inicialmente como canal de entrada para o aparelho digestivo,
esses dois pedaços de carne que se juntam e se separam voluntariamente são
capazes de não só canalizar a alimentação, mas de abrir a alma
As pernas bambas de um misto de frio, arrepio, calor, fome, cede e tudo
que se resume em desejo
Não há quem aguente
É impossível não se apaixonar em Paris
Já era noite
Na última boulangerie aberta na cidade que cedo dorme havia um rapaz
que olhava indiscretamente para nós, como quem pudesse perceber o que havia no
ar, como se nossas auras colorissem o ambiente, como quem soubesse o que estava
por vir
Tudo o que eu queria era uma boa garrafa de vinho, que me acordasse
daquilo que me parecia um sonho, que me colocasse no prumo de uma embriaguez
passageira, que certamente curaria após uma breve ressaca
Vinho na mão, nos lábios, na cabeça
Marcas de batom na taça barata
Meia luz provocada pelo teto de vidro do loft no centro da cidade
Brisa de frio que passava por debaixo da porta de madeira
Gemia o piso provocado pela contração e troca de calor
Noite branca, em claro
Adornos musculares, desenhos delineados em forma de corpo pelas mãos de
um sábio criador, que colocou tudo em seu devido lugar
Um encaixe perfeito
Seria Paris mais uma vez jorrando magia?
Manhã de outono
Frio
Rio Sena lentamente passeando do lado de fora da minha janela
Pouca roupa me lembrava que fazia frio lá fora
Mas aqui dentro, aqui dentro, nada seria como antes
Nenhum outono seria tão quente assim
A tentativa de lembrar com exatidão o que ocorrera na última noite é em
vão
Toda temporada se resumiu em doze horas à margem desse rio, como uma
conexão no aeroporto de uma estação interplanetária, que lhe tira de órbita a
razão e qualquer outro sentido que ligue a terra e a uma suposta realidade para
a qual se deva voltar
Nada é para sempre?
Paris é para sempre!
E aquele outono ficará registrado na minha pele feito tatuagem
Reaparecendo em cada arrepio que terei daqui por diante
Eu poderei esquecer um dia, quem sabe... Mas a cidade...ah, essa há de lembrar
daquele par de olhos castanhos, das mãos dadas na calçada, da troca de olhares,
das risadas provocantes, do vinho, dos copos manchados, dos corpos, do calor que
fez naquele outono