Quem sou eu

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Todos os dias a Arte me toma de assalto e me leva para a Vida Real. Troco palavras, vejo pessoas, vivo um dia após o outro, como se o de ontem não tivesse existido, como se o de amanhã ainda estivesse muito longe de chegar.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Apenas é

                                                                                               Amsterdã - 2017


Acorda e ainda é noite
Lentamente abre os olhos, incomodada pela fresta da janela que transparece a luz do poste em frente da sua casa
Lá fora faz um frio desgraçado, tanto quanto um amor ressequido pelo desapego, tanto quanto um coração aquariano em desilusão
Ela estica o braço direito afim de alcançar o criado mudo estrategicamente emendado a cama, ali naquela pequena plataforma arredondada tem tudo o que mais precisa, restos de uma garrafa de Whisky barato, meio maço de cigarro, um livro borrado por anotações e gotas de desespero, um velho isqueiro que escuta com frequência as suas reclamações e uma garrafa de água vítima da sua frequente desidratação
Deseja não mais levantar, deseja vegetar e cumprir seu destino ali quieta, parada, inerte ao desejo do mundo em lhe ferrar a existência
Mas precisa encher a garrafa de Whisky, o maço de cigarro e completar novamente a garrafa de água
Com um ânimo duvidoso joga-se debaixo do frio chuveiro de roupa e tudo, talvez isso lhe facilite a higiene, talvez complique ainda mais o seu estado duvidoso de sanidade
Amarra os cabelos ainda molhados para não ter o trabalho de pentear, é preciso espera-lo secar, a umidade de Amsterdã não perdoa
Enquanto engole uma xícara de café fumegante espia para o lado de fora da janela os primeiros raios de sol surgirem
Poderia ter se emocionado devido a beleza laranja e horizontal que rasga a paisagem, mas esse tempo já passou
Foram-se os dias em que o céu azul e o sorriso de uma criança lhe fizeram flexionar os músculos do rosto em sinal de agrado, o vazio da apatia dominava seus dias e ecoava nas suas noites
Dizem por aí que foi um amor não correspondido, dizem que caiu da bicicleta e perdeu parte da memória, outros falam que o afeto lhe foi roubado por um feiticeiro, as pessoas só dizem, sem nada dizer
A verdade é que deixou de sentir aos poucos, na medida em que seus esforços, amores, crendices e até o apego científico deixou de fazer sentido, simplesmente foi deixando de sentir
Inicialmente viu como vantagem tal situação, dormia com homens e mulheres sem qualquer pudor, faltava ao trabalho com a mesma cara de pau e desculpa esfarrapada, não curtia mais ressacas porque passou a viver um estado perene e ébrio
Foi vivendo, ou pelo menos era o que achava
Foi devorando pessoas, corações e histórias sem qualquer sentimentalidade
Fez muita gente chorar e algumas vezes isso lhe alimentava o ego, o fato de puder despertar nos outros aquilo que ninguém mais podia fazer com ela
Sentia-se endeusada por esse poder, como se isso jogasse uma benção sob todos aqueles que se envolvesse em sua teia
Estava imune a vida, sem perceber, isso lhe custou a existência
Passou a ser apenas uma sombra, uma névoa invisível e densa que se confundia com a fumaça do seu cigarro que lhe amarelava cada vez mais o polegar e o indicador
Ela cheirava à passado, à memórias as quais ninguém quer lembrar, à dor das desilusões, ao ópio do abandono, ao desapego de si mesmo
Não mais seria, apenas é o que se tem para aquele momento
Trepa na mesa do escritório com um colega de trabalho com a mesma empolgação que divide um lanche com um vira-lata sentada no banco da praça na hora do almoço
Flerta com estranhos com o olhar de pedinte e astuciosamente convence os desconhecidos de que vale a pena o risco de conhecerem o estranho que há entre as suas cochas
Ilude sem dizer uma só palavra, sobrevive sem qualquer comunicação assertiva, fala a penas quando estritamente necessário, mas sempre diz ao mundo à que veio
Veio mais para confundir que para explicar, mais para dizer que para falar, não precisa mentir para iludir, não precisa humilhar para explicar, não precisa de embriaguez para fazer, nem de aparência para conquistar
E no fim do dia volta para casa com a sensação de tarefa cumprida, com sua garrafa de Whisky de procedência duvidosa debaixo do braço esquerdo, disputando espaço com uma baguete francesa
Na cabeça a certeza de que tudo tem o seu destino certo, assim como o malte engarrafado, o trigo trabalhado, o tabaco fartamente tragado, as células suicidas do seu franzino corpo frequentemente atacadas 
Sem alarme, sem drama, tudo esperando a sua hora, tudo seguindo o fluxo da certeza ávida que é não sentir

Roberta Moura



Procura



Procura quem te procura
Quem não confunde teu coração
Quem não te enche de justificativas, sendo elas verdadeiras ou não
Quem te tem como presente, com gratidão
Procura quem te tem como prioridade, não apenas como mais uma opção
Quem respeita teu silêncio sem soltar da tua mão
Quem fica por vontade, mesmo quando nao há necessidade
Quem monta mesa só para te receber
Procura quem não te julga e sempre se coloca à disposição
Quem sai correndo ao teu primeiro chamado
Quem quer um para sempre com parceria e amizade
Quem sorrir mesmo sem vontade só para te alegrar o coração
Procura quem não se esconde e só te busca na precisão
Quem nem precisa falar para te mostrar a verdade
Quem não te deixa esperando por vaidade
Quem entende que não se brinca com um coração 

Roberta Moura



terça-feira, 18 de junho de 2019

Um garoto




A recordação que tenho daquele dia é a cor caramelo dos seus olhos, como se eles estivessem  por todo esse tempo maturando para poder me olhar novamente
Parece que foi ontem, e o pior é que parece que foi ontem mesmo
Essa coisa de tempo é engraçada para mim, eu poderia passar um dia todo contemplando o seu mau humor, as suas curvas, as marcas que o tempo fez no seu rosto, as suas cicatrizes, todas elas, indiscutivelmente, todas elas de uma só vez
A gente não pode deixar de dizer o que tem que dizer, fazer o que tem que fazer e já faz tanto tempo que meu maior receio é que ela volte a esquecer
Naquele dia havia um brilho no seu olhar que quase me cegou, na verdade, quero parecer que não, mas já estou cego novamente e há muito tempo o diagnóstico é o mesmo
É como se as minhas pálpebras não pudessem resistir ao imã do seu olhar, como se o olfato não pudesse evitar o ar que rodeia a sua presença, como se a mão tivesse obrigação de toca-la, como se meu corpo reagisse e somente existisse em seu favor
Ali deitada me parece uma miragem, me esperando, querendo cada segundo, desejando profundamente nosso momento
Um garoto, eu não passo de um garoto na sua presença
E a órbita se abriu, o céu soprou ao nosso favor, a terra tremeu ou foram minhas pernas cujos movimentos não consigo mais sincronizar sem os seus paços
Tudo isso diante dela, daquele olhar que me faz congelar, toda minha complacência, tudo, o tudo que não cabe em mim, que tem que sair para poder acalmar, surtar para poder alcançar
O meu rosto já não é o mesmo, minhas ancas, meu peso, meu fôlego, tudo isso faz parte do  complexo amor que nos guiou até aqui
Como tocar o mesmo instrumento, apreciando os desafinos, corrigindo as claves e em um momento de pleno frenesi compor uma nova canção, que nos eternize de vez
Há um preço tão caro a ser pago, tantas pedras deixadas pelo caminho, as quais fazemos questão de catá-las, uma por uma, para com elas edificarmos o lar que nos verá adormecer e despertar todos os dias com novos sonhos
Eu a enxergo com os olhos da alma, como quem tenta tirar toda dor, todo sofrimento que eu já fiz chegar ou que um outro provocou
Como se eu tivesse que fazer, como fosse tomada por essa posse Divina afim de arrancar as raízes dessas dores, para isso me fiz revestida de tantas camadas e armaduras que quase não me enxergo por alguns instantes 
Faz tanto tempo e foi ontem, com o passar dos dias, dos anos, dos danos, das décadas, a gente percebe que ninguém sabe nada sobre ninguém mas é preciso aprender a começar de novo e reconhecer a ignorância de cada um sobre a vida alheia, mesmo que o alheio seja o amor
Um à um a gente vai percebendo, ou melhor, o coração vai escolhendo e afunilando o que a gente reconhece como lar, quem a gente ama acima de tudo
Quem mais sabe é quem reconhece a cegueira e adapta-se ao submundo da ignorância, porque é bem melhor esperar tudo de todo mundo que ser surpreendido do nada, com quem a gente acha que conhece
E assim a gente vai se achando, se segurando, trincando os dentes, se encaixando, se escondendo, se reencontrando
Todas as vezes que o seu coração quebrou meu colo foi o seu consolo, vi tantas vezes esse doloroso momento que sei ao certo a duração do espetáculo, a hora de sair do palco, fechar as cortinas e deixar o show da vida continuar
Mas tudo nela parece permanecer, ou eu que vejo o infinito no seu perfil mais bonito, assim me permito florescer
A cabeça encostada no meu ombro, os dedos se tocando, cada ponta, casa falange que se aproxima
Não há presente que suporte a sua distância, não há pressa maior que a ausência da nossa esperança, porque “ser” do outro, faz tempo que já “somos”

Roberta Moura



segunda-feira, 10 de junho de 2019

ContemplAmar



Havia areia, água e sal
Havia sol, mas também sombra
Haviam quatro pernas curvadas, de frente para o mar e quatro braços voltados para a mesma posição
Haviam alianças mas não estavam nas mãos esquerdas, promessas feitas
Haviam sentimentos e não mais ressentimentos
Havia um longo passado e quem sabe um futuro, havia um presente contínuo e assustadoramente lindo
Haviam olhos nos olhos, canção tocando na cabeça, silêncio da boca, arrepio na nuca e gritos nos poros
Havia um desejo tamanho que não cabia em dois peitos separados, queria expulsar as roupas, explodir o resto do mundo, mesmo o resto do mundo tendo sido tão maravilhoso com ambos
Havia todo tempo do mundo, mas também havia pressa
Havia medo, respeito e companheirismo
Havia gratidão e mais medo, há como havia medo
Havia medo de tudo, do que é novo, do que é velho, medo da inconsistência, da indecência que é sentir
Haviam palavras sem som, vozes sem pessoas, pronome oculto que se esconde sobre o desenhar dessas letras
Havia um amor tamanho que insiste em florescer
Haviam olhares, calma e desejo
Havia um oceano inteiro, límpido, virgem, trepidante, contemplativo, único
Havia empatia e sincronicidade, havia sororidade
É verbo sem carne, e desejo sem pele, é sentido sem razão
É textura, cheiro e olhos que se penetram
É um amor infinito, o mais bonito de todos, a dedicação de duas vidas a arte de amar
Tudo isso era tudo o que havia
Tudo isso é o que há

Roberta Moura


quarta-feira, 13 de março de 2019

Vidas entre pontes

                                                                       Praga, Dez 2018.


Vestindo um longo sobretudo preto espiava de costas para o castelo de Praga a beleza imponente da Ponte Charles. Com os dois pés plantados em uma pedra sabão tentava inutilmente riscar com a ponta do seu sapato polido a rocha que mais parecia aço.
Procurava inspiração, procurava além da névoa daquela tarde algo que lhe aquecesse o sentido de existir. Não levava consigo tristeza, apenas a apatia, a melancolia que é peculiar a todo ser apaixonado e não retribuído. Pensava ser um desperdício sentir tudo aquilo sozinho.
Enquanto caminhava em direção à cidade velha deixava seus dedos passearem nas colunas da ponte castigadas pelo tempo, revezando entre o indicador e o maior de todos o peso dos seus pensamentos.
Olhou atento o trabalho do tempo nas calmas águas do Rio Moldava, batendo e esculpindo vagarosamente sua presença nas pedras centenárias do pé da ponte. Pensou consigo mesmo: “Nunca fui assim, paciente no amor!”.
Na verdade, e muito ao contrário disso, o que lhe separava dos demais amantes era sua capacidade de apaixonar-se tantas vezes pela mesma pessoa em lastros temporais diferentes. Também era bem verdade que sua perspicácia laboral não acompanhava o tolo coração que abrigava.
Havia deixado há mais de dez mil léguas quem tanto amava, por não ser igualmente correspondido resolveu partir.
Encostando a testa no memorial de Santo João Nepomuceno oscilava o pensamento entre viver sem sua fatia de amor ou jogar-se mais uma vez de cabeça naquele sentimento sem recíproca. Pensou em humilhar-se novamente, pensou em quanto já havia dedicado todo seu amor e atenção, pensou que nada disso havia funcionado.
Já era o quadragésimo dia da sua peregrinação, mas não houve um só desses que não pensasse nela, que não escrevesse para ela cartas que talvez jamais entregaria, não houve uma só noite que não procurasse no céu uma estrela que revelasse a ela aquele amor desmedido. Tudo isso mesmo sabendo que ela jamais teria feito o mesmo.
Que todo! Queria retribuição... De tanto amar cegou, não percebia que o amor não pode pedir nada em troca pelo simples privilégio que existe em senti-lo.
Já era tarde e seus passos passaram a ser acelerados, em seu casaco negro reluzia pequenos cristais de neve que aos poucos penetravam as fissuras da linha grossa em forma de gota. Ao observar tal mudança de estado físico sorriu levemente e assegurou que ao menos alguma coisa naquilo tudo estava repleto, quisera estar preenchido como aquela fenda de linha, água e algodão.
Ao reparar seu reflexo no vidro de uma cafeteria na cidade percebeu a afeição trancada, nesse momento refletiu sobre a longa jornada, os açoites do mundo, as belas moças que lhe deram atenção e foram ignoradas, voltou a sentir na boca o sabor das guloseimas mais diferentes que já havia provado, viu além do tempo o que ainda estava por vir, enxergou que o amor para dar certo tem que ser de dois, que de nada vale sacrificar-se em silêncio por um prêmio que ninguém vê, nem mesmo ele.
Foi ali, na beira da calçada, de frente para aquela úmida vitrine que falou para o seu coração e foi ouvido. Jura que escutou os átrios palpitarem em código em quanto lhe dizia que o amor não lhe faria tremer as pernas, nem faria acelerar seus batimentos ao chegar perto, mas lhe traria simplesmente paz.
Talvez fosse exatamente isso o que ele precisasse naquele momento para acovardar-se, para recuar, para bloquear o elefante verde antes que ele o atropelasse de vez, tendo em vista que ele nunca quis fazer parte da sua manada.
O que não faz jus a sua história é que ele nunca foi a escolha dela, mesmo podendo ter sido quem mais a amou. E hoje, em fim, ele percebe que o que foi corda de aço mais parece fio de cabelo.
Pela primeira vez ao longo do tempo, do vento, do frio, do calor, da saudade, percebeu que ele não é quem e o que ela quer e isso deveria ser o bastante para ele parar de sofrer.
É mesmo preciso entender muito sobre si mesmo antes de jurar amor ao outro.


Roberta Moura



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Sobre Orlando


Edimburgo, Escócia, 2018.


Orlando tomava chá no coração da sala, contemplava o tempo que lhe passava rápido demais e lhe enchia de rugas as mãos. Repara como o tempo não volta, como marca com linhas longitudinais os traços da mão, dizia ele entediado.
Da sala avistava os traços irregulares dos galhos das árvores, que mais lhe pareciam veias de sangue negro. Sofria aquele homem o abandono da mulher amada, como sofria...
Naquele inverno tudo estava mais latente, desde a neve que insistia em cair, quanto a gravidade que não lhe perdoava, representada nas costumeiras dores nas ancas.
Com uma das mãos segurava um antigo exemplar de Um Teto Todo Seu, com a outra mergulhava e submergia a colher na infusão feita de mate torrado, água e tempo, tudo que seria necessário para aquecer o corpo, tendo em vista que sua alma parecia não mais ter remédio que despertasse o calor.
Orlando esperou tanto tempo, toda a vida, sem nada reclamar. Fez planos, pintou a casa, lustrou os móveis, comprou à prestação o sofá que ela tanto queria, moldou a silhueta com a roupa que ela escolhera, mas tudo a debalde. No fundo, bem no fundo, ele sempre soube disso, que prescindiria nela a razão de nunca o pertencer. Que novamente seria posto de lado, como se ele tivesse que pagar karmicamente a missão de tê-la por etapas, nunca para sempre.
Orlando caiu feito um pato nas armadilhas do destino, mesmo conhecendo todos os caminhos e avistando as mensagens na linha do tempo que lhes parecia tentar avisar sobre o que lhe esperava.
Mas meias palavras não bastam para que m carrega uma certeza tão monstruosa quanto o amor que ele sempre sentiu por ela. Talvez não baste todo o alfabeto e uma sequencia de frases compostas ardilosamente de verbos transitivos indiretos. Não basta a gramática, nem mesmo as frases curtas e programadas dela. Ele sempre quis mais que isso, porque sempre teve muito mais para dar.
Mas, mesmo diante de toda a sua loucura de amor, da sua paixão desmedida, do caos que permitiu que se instalasse em si mesmo, não foi o suficiente para desquita-la do marasmo no qual ela lucidamente aceitava sobreviver, com a desculpa de amor, de retribuição.
Talvez a mediocridade da segurança, o pasmo reflexo do “deixar quieto o que está quieto” tenha fisgado os seus dias, talvez Orlando tenha a assustado com suas certezas exageradas.
O que corre nos corredores do distrito é que ele sempre foi demais para ela, ela sabia disso. Ela fez sua escolha, preferiu viver à míngua de amor que há sombra da áurea livre dele.  Mais uma vez ela perdeu a grande chance, o cavalo selado, a devoção total de outros ser humano, ela perdeu muito mais que ele, perdeu a chance de conhecer a vida real.
Aquela sala está vazia agora, sem ela... oxalá possa aparecer viva alma que um dia o-pertença com um amor tão intenso que desperte nele novamente o ensejo de fazer alguém feliz por toda vida.
Talvez isso é o que mais entristeça o nobre rapaz de barba por fazer, e deixa feito um umbral de sentimentos o seu peito, a falta de fé dela, de quem desistiu de saltar para a vida, desistiu de viver.

Roberta Moura




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Umbrella



Cheiro de manjericão, braços dados
Eu poderia parar o mundo naquele instante
Sair voando pela cidade, até chegar na nova era
Pudera, pudera levar comigo seus doces beijos
Sua fragrância acentuada
Quem dera, quem dera merecesse o céu, ao menos o da sua boca
Pudesse deitar no seu colo sem pressa de sair
Chegar em casa e trancar-me no seu leito de ternura e mansidão
Há poder no amor, há cura!
Amargura não se pode ter, quem tem amor no peito para oferecer
Incompatibilidade de gênero, número e grau
Amor é um, amargura é dois, separados
Mais de trinta e dois dentes, nenhuma polegada a mais é necessária, quando de perto se tem o que precisa, sua morada é o sopro da minha brisa
Calor e fogo perene, alimentado de forno à fogão
É como ter um guarda-chuva, um para raios e ao mesmo tempo invocar todas as forças da natureza 
Canto e danço como doida, esquisita, na palma da sua mão
Conjugando o mesmo verbo de outrora, no presente, contando com essa hora
Majestade sem coroa, juvenil reinado, santo escapulário de devoção é o teu rosto, devoto sou do teu coração
Canção cantarolada pelo brunir do sono, velo teus olhos com um olhar de cão sem dono
Me deixo levar por esses momentos de completo frenesi
Assino a lista de presença do teu mais silencioso encanto
Gravo o teu nome nos meus dias
Passamos a ser uma só palavra, um nome, uma poesia
Somos nós, uma só sílaba átona, gritada pela madrugada
Justiça que tarda mais não falha, prazer em te receber, sempre leve, nunca de mãos atadas
Para ser sempre a sua cúmplice, amada, amiga, namorada

Roberta Moura



Fantasia Real

Londres, 2019.

Fantasia do meu ego
Quero tudo teu
A formação do sistema solar rodeando teus olhos
Quero teu colo, que na verdade é meu
Sou teu espelho, tua vaidade, sou outro você
Quero tuas veias, o sangue que circunda as vielas do teu apetecer
Vinde ao meu auxílio, aspirar da minha devoção
Quero o teu fervor, o calor de tuas mãos
Olha nos meus olhos e te encontres por lá
Quero a tua lucidez verdadeira, a tua subida, segurar a tua escada
Não quero precisar te segurar, não te quero ver cair no chão
Quero tua luz que me irradia, quero tua volição, teu perfume, mergulhar a tua guia na minha mais forte aspiração
Ser seu pão de cada dia, seu tudo, seu descansar, sua agonia
Quero os teus sentidos mais profundos, proteger a tua casa, desenhar o teu mundo
De tanto querer as vezes silencio, não digo o que quero, as vezes repito
Onde estamos nós, dentro ou fora do abismo, imbuídos nessas lacunas de falsas informações
Seu querer me espera e de longe avista a esperança na janela
Espia com devoção a minha mais recente chegada, a volta para casa, meu sublime torrão
Meu querer é seu sossego, sua certeza mais profunda, a nuance da sua pele e meu couro reluzente, na boca o beijo mais profundo
Somos além desses problemas, somos retrógrados vivendo nesse mundo
Esperando o sol que nasce de madrugada e a nave que nos leve para o outro mundo
Construa o seu caminho de volta com as migalhas que te dei outrora, para que encontre o verdadeiro banquete que te espera, no meu peito seu amor não paga mora
Fique atento no que te digo, os sinais não mudam a história, somente o querer mais profundo é capaz de oferecer a reviravolta
Vejamos o que podemos fazer no limiar dessa velha, nova e perene fábula
Rejeite o sossego desprovido, o beijo do amigo e um amor que se reduz a memórias
Mantenha quente o peito e nutrido o amor que te faz caminhar, que te torna invisível aos olhos do bandido, que te eterniza na história
Seja meu prazer inquieto, meu calar mais perpétuo, minha exatidão

Roberta Moura


terça-feira, 20 de novembro de 2018

É de vento





Ela é toda de sol e uma pitada de lua
De balança, ela é de um certo equilíbrio tendencioso
Não se dá à toa, viaja ouvindo um som, é uma viagem cheia de bagagem
Não tem quem alcance, pode ser o maior grude e ao mesmo tempo a rainha do desapego
Bem quer, mas basta não se sentir querida para desaparecer feito névoa soprada
Ela é de dormir pouco e sonhar muito, é de realizar
Deseja como poucos, corre riscos sem medidas
Mas basta sentir o cheiro do abandono para sair do casulo e virar borboleta
Meu bem, meu bem, não deixe em modo soneca quem nasceu para modo avião
Ela é de vento, forte, mas também de calmaria
Ela é pouco mais que o suficiente, escuta mais que fala, escreve mais que lê
Observa que ela te observa, escuta porque ela te escuta, lê porque ela te enxerga
Tá passando, desfilando na tua frente, vibrando na frequência da estação que você acabou de mudar
Sem demagogia meu bem, sem tretas, ela é de entender mais que de raciocinar
Ela não é de passear na vida, é de fincar morada, de papel timbrado, assinatura e planos concretos
É de voar e de voltar, como um carcará no pulso daquele que confia, de quem confia
Não amarre seus pés, não solte seu bico, não se engane, clareia teu passo e teu terreno
Nem pense que vai se explicar, muito menos te acusar
Não a deixe voar para tão tão distante, porque ela pode não querer voltar

Roberta Moura



Um





Nós somos uma canção inacabada
Somos gole de uísque deixado no copo, somos roupas pelo chão
Somos balanço de rede, amor gritando no silêncio, somos o arrepio na espinha
Nós somos o badalar do Big Ben, a mala pronta para zarpar
Somos vontade todo tempo, somos quem era, o que é e o que ainda está por vir
Somos tantos e somos um só, somos provocação e descanso de cabeça no colo
Nós somos sacrifícios e tédio diário, suportamos um mundo que não foi feito para nós
Somos o mesmo número de sapato, o batom vermelho escrachado
Somos o seu desejo por segurança e a minha inconsistência e mudança
Nós somos o que verdadeiramente queremos ser
Somos o toque discreto com os olhos, a sede no escuro do quarto, o guiar das mãos
Somos o dia bom e o dia não tão bom, mas que ao final percebe-se que deu tudo certo
Nós somos o desenho rabiscado do tempo que insistimos em corrigir, mesmo estando tão longe da perfeição
Somos luz na escuridão, o indicativo do presente, um pretérito imperfeito...
Somos apelos, seu medo, meu desejo, sua razão
Nós somos um só, para deixar ser o que tem que ser

Roberta Moura




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Estranhamente nosso


Dormiu de boca aberta...
E eu rezo por ela, todos os dias enquanto respirar
Virada para o lado esquerdo, ou voltada contra qualquer corpo que tente agarrar
Dorme de quina para a lua
Parece que tô vendo, uma perna esticada e outra em 45 graus

Travesseiro e cama, pequena ou grande, ereto ou de banda, me encolho inteiro para ela se espalhar
Suando o cangote, mesmo com o ventilador ligado
Acorda com reclamação, o calor tá demais, sopra o pescoço que o vento é pouco
Eu caio nesse laço, exatamente do mesmo jeito
Com toda a liberdade, como quem pula em um precipício
Como quem sabe onde tudo isso vai dar, mas sem qualquer receio de se estabanar
Vai seguindo o fluxo sanguíneo, dos conexos neurais, hormonais, instintivos
Como um amor que ama mais que tudo, daquele do qual se falou outro dia para uma amiga
Desses que não são daqueles
Que é preciso tempo para maturar, para apurar, para se concretizar
Do nosso estranho e único modo de ser, nosso jeito único de ser exclusivamente nosso


Roberta Moura


De portas e peito aberto


Entre os paralelos, entre as linhas, os pilares e anos
Entre os meridianos, as juras, devoção recíproca, alinhamentos e planos
Entre as luas, no meio da noite, comportadamente vestida ou parcialmente nua
Entre os encaixes, o silêncio, as letras, as promessas feitas e a lealdade exercitada
Entre o céu, a terra, a corda bamba e do violão, dentro das canções que encantam
Entre o sim e o breve, o papel timbrado, a saúde e a doença, no meio de qualquer crença
Entre e fique à vontade
Descansa a cabeça que pesa entre os ombros, fecha os olhos e parte para um plano só nosso
Bem no meio desse oceano, do aparente caos instalado, entre a exaustão e o cansaço
Entre que a casa é sua
Essa janela azul e a porta da alma sempre estará aberta, esperando você chegar
Com o peso do mundo sobre os braços, com a alma pedindo para aliviar o cansaço
Entre que o colo é seu, todo anseio, a base, os braços, os seios, tudo o que aparentemente seria apenas meu
Entre e chegue para ficar, venha com seu fardo pesado, pronta para se aninhar, volte para onde nunca deveria ter saído
Entre e fique comigo, pois aqui é o seu lugar


Roberta Moura




Paraquedas






Formou-se como o melhor da turma, foi o melhor namorado, o amigo mais dedicado, o filho que toda mãe quer ter
Galgou boa posição social, boa conta bancária, só não logrou êxito em controlar o incontrolável, caiu na tentação de amar
Caiu!
Se entalando com feijão e farinha todos os dias às 12:00 horas, no fim da noite sentava na varanda e discutia política, arte, amor com uma propriedade que não possuía
Mas na sua cabeça, mas no seu coração, havia um buraco tamanho, que não cabia mais nele, que nunca mais iria fechar, abriu-se a caixa de pandora que sempre comentara com os mais íntimos
Comentar isso o fazia calar de uma horar para a outra, o fazia parar de raciocinar normalmente, como de costume
Conturbava e desconectava seus pensamentos sempre tão retilíneo, o fazia humano demais, coisa que ele não gostava, o entregava de bandeja nas mãos dela
Todas as vezes que olhava para uma pá pensava em ler um tutorial que lhe ensinasse a enterrar um coração que ainda pulsava, que latejava o nome da amada, que lhe tirava a concentração trivial
Queria escrever um novo tratado mas lhe fugiam as palavras, queria combinar mais um plano infalível, mas o raciocínio lhe fugia da lógica
Todas as promessas foram quebradas, tudo que jurou não fazer lhe cobrava mora, tornou-se tudo o que ignorava e justificara tal tese no amor
O que o coração lhe falava não era o que a realidade assinava, ele acreditou no coração, mais uma vez e despencou de um penhasco tão auto que enquanto caia não percebia, não percebeu que chegava o que lhe fez arrebentar-se no chão
Devastado, foi a palavra que usou ao me contar com detalhes tudo o que viu e ouviu naquela noite
Um coitado, que de tanto amor cegou e voltou a enxergar na hora e lugar que menos queria, em meio à uma multidão, sozinho
Recusa o cale-se, recusa o tinto do vinho, recusa ter que escutar desculpas, nada grita mais auto aos ouvidos de um apaixonado que a voz doce e suave do seu amor
Foi dela que ouviu, dela que entorpeceu, dela que recobrou a consciência de abrir o paraquedas antes de enfiar a cara no chão de vez e levar consigo tantos sonhos ainda não realizados
Não há mais dúvidas, as coisas são para o que e para quem são
E, embora sua consciência discuta ferozmente com o seu coração, segue sozinho o fado daqueles que precisam escutar mais que falar, então cala  
Tudo parecia normal, tudo parecia sublime e era, só ele fazia questão de ignorar a verdade
Existiria sempre alguém na sua frente na hierarquia do amor daquela mulher, sempre houve, sempre haverá
Custou a entender, e possa ser que ainda não tenha entendido profundamente a regra da razão, da coisa toda
Olhando bem no reflexo dos seus olhos percebi o quanto se enganou com uma realidade que ele mesmo construiu, que inocência, que subestimação do seu próprio sentimento, de todo sentimento
Quer me dizer que vai dar uma chance a razão, mas não me parece confiante, acho que é muito mais aquilo que ele deseja do que aquilo que realmente fará
Conscientemente e encarecidamente peço para que tenha paciência e escute os sinais do destino, da realidade que o cerca, que deixe o paraquedas em alerta, que não hesite em utiliza-lo
Com ouvido de mercador ele cala! Ele sempre cala!
Sensibilidade, amor, versos e realidade, esse jogo deveria ser proibido, é uma queda de braços injusta
Coração, não pegue pesado com quem é leve, perdoe-se
Ele bem sabe que o tempo não cura, somente tira o incurável do centro das atenções, contudo, nada disso faz acreditar menos, todas as vezes, as falidas e repetidas vezes
Cura é consequência do jeito que você vê a vida meu dileto amigo, se não faz sentir não faz sentido
E quando não se sabe o que dizer é suficiente sentir
Ao que me parece, há uma infinita esperança ligada ao amor que promete que tudo vai ficar bem, mesmo quando o óbvio e a razão assinala o contrário

Roberta Moura



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Quem não pode parar

Londres, 2017.


Passa das 19:00 horas, caminha em sentido contrário a névoa que lhe cortam os lábios de frio
Não vê a rua sobre a qual caminha, não enxerga a calçada, nem o beiral que separa seus pés do meio da estrada
Ela só caminha levando consigo o fluxo dos seus pensamentos nos olhos, não discerne, ou finge não enxergar o que está bem na sua frente
Por tanto não querer enxergar não esperava que uma bigorna apontava para a sua testa há tempos
Fazia frio naquela noite no lado leste da Tower Bright, ela visivelmente cansada, sentou-se faminta, mais que isso, sentia um vazio ensurdecedor
Parada por alguns instantes ela tentava respirava, desentalar as palavras que corriam contra o fluxo mecânico e gástrico do seu corpo
Acende com dificuldade um cigarro de aroma insuportável e com a outra mão apalpa no bolso esquerdo uma garrafa vazia de alegria, acabou-se, mais uma vez
Ela jura que quer parar, mas o enfeite ilusório de um amor que deixou invadir seus sentidos novamente lhe prova o contrário, cai igualmente em seus próprios devaneios
Não está mais lúcida, não quer mais pensar, se recusa a obedecer ordens, apenas acena positivamente com a cabeça quando lhe convém
O certo é que ela não quer mais nada dessa vida medíocre, de bater ponto no trabalho, de chegar em casa todos os dias sozinha, ela não quer mais pensar
E tudo que ela queria era voltar para casa com um sinal positivo da vida, tirar dos seus olhos aqueles tijolos vermelhos que cercavam o bairro e que lhe trancavam feito um labirinto
Foram tantas as palavras que disse, tanta exposição, deu tanto seu coração e seu corpo que parece ter esgotado a fonte de desejo que despertara o animal que silenciosamente lhe habita
Pensou por um momento que sua a caminhada teria chego ao final, tola
Pensou poder descansar seus pés gelados, pensou e pensa demais essa pobre moça
Viajando entre o desejo e a temperança que lhe faz parecer eternamente serviçal, deixou escapar a sua sagrada sanidade
Pensa consigo mesma, “eu não posso chorar” e engole palavras doces como bala de canhão
Concorda, por outro lado, com as cobertas de razão decisões de quem comanda
Ela obedece por não ter mais juízo, por não ter mais forças para lutar contra a realidade que tanto tentou esconder para si mesmo
Hoje, caminha esmo, sem saber para onde está indo, carregando consigo apenas o ecoante instinto de sobrevivência que lhe insiste em dizer: -você não pode parar!


Roberta Moura




Uma carta para ele


Roma, Jan. 2017.

Meu caro amigo
Faz tempo que procuro um jeito de dedicar a essa a tudo isso algumas considerações
Em especial, sobre essa minha necessidade incontrolável de te contar sobre os caminhos pelos quais tenho passado
Não tem sido nada fácil, nada confortável, ter que lidar com essa sensibilidade extrema
Sabe, ninguém perguntou como estão meus dias, nem mesmo se essa tal felicidade tem me visitado
Ninguém me perguntou se estou feliz
Tenho carregado o mundo inteiro em minhas costas e essa bagagem tem pesado um tanto mais que a mim mesmo
Nada que vem de fora me tem atingido, senão a sapiência das especulações e da falta de amor próprio, além dessa sensibilidade e ansiedade extrema
Meu querido, você não tem noção do que a carência é capaz de provocar
As pessoas exigem amor e respeito vestidas de vaidade, insegurança, ciúmes e egoísmo
É realmente lamentável vislumbrar tamanha discordância entre os sentimentos
A posse, a inveja e até mesmo a falta de amor próprio, tudo isso cria uma onda de negatividade terrível, apta a consumir até mesmo as melhores intenções
A carência e a necessidade de pendurar-se em outra vida distrai o foco da realidade e acaba por deturpar o futuro
Confesso que não sei lidar com tudo tentando sustentar a razão costumeira
Quando o ser humano perde a individualidade dos seus sonhos e sentidos passa a viver na aflição, na agonia, no sufoco
Por certo há de haver maior habilidade minha no sentido de contornar tudo isso, mais que isso, há de haver empenho, por isso oro para não faltar vontade de faze-lo

Roberta Moura



Sobre chegadas, regressos e partidas

Berlin, Schönefeld, 2017.


Tomo um café preto e robusto, aqui, na sala de espera desse aeroporto, no meio dos vários nadas que me cercam
Sem saber ao certo onde devo ir, se devo ficar ou como prosseguir eu me intalo de pó, cafeína e água quente
Você puxou o freio de mão da nossa locomotiva e quem capotou fui eu
Que tolice a minha, que burrice, logo eu que assisti de camarote e tantas vezes esse mesmo filme, que confusão é essa na qual mergulho reiterada e conscientemente
Daqui do saguão reparo as pessoas que passam de um lado para o outro, sempre com pressa, como quem sabe onde precisa chegar
Invejo essa segurança, essa autonomia toda
Eu invejo essa disponibilidade, esse lance de escolher o que sentir e medir as consequências com precisão
Na verdade, o problema não é o freio de mão puxado, mas a mão na direção que guia tudo isso, eu não deveria ter me abandonado, entregue assim tão facilmente
Faço listas e desenho um futuro próximo em uma folha de guardanapo
Cai no formato de gota a borra do café, mas ela não desvenda o meu astro
Penso que preciso de um novo CEP, novos rostos, novos sonhos, carimbos no passaporte, novas línguas e linguagens
Percebo que a única coisa que não muda é a figura do seu rosto, esse velho novo rosto que insiste em me seguir
Um rosto gravado na memória do meu coração, que tantas vezes já foi pisoteado pelo mundo e idolatrado por mim
Dono das mãos que puxam o freio, o gatilho e me bloqueiam indo de encontro ao meu tórax, que por vezes me impedem de prosseguir
A moça chama a minha partida no alto-falante e eu gelo dos pés a cabeça
Não porque estou indo embora mais uma vez, mas porque ninguém deseja me impedir
Ninguém para chegar na fila do check-in e gritar o meu nome, ninguém para me pedir em casamento no meio da multidão
Ninguém para me beijar tirando o fôlego e pedir para eu ficar
Que sina essa minha, de dormir depois e acordar antes, por fim dormir sozinha
No fundo eu sei que o mundo é a minha casa e o passaporte da minha felicidade precisa ser validado unicamente por mim
Ainda me falta esse controle, pois eu tendo em perde-lo todas as vezes que vejo o seu rosto
"As coisas não podem ser assim", foi a justificativa dele ao me ouvir
Logo eu, que falava tão pouco e agora me exponho tanto
Quando seus olhos deitam sobre os meus as vezes se dilatam, as vezes me relatam, outras me delatam, noutras me deletam
Tudo me parece fruto do descaso, uma brincadeira sarcástica do destino sob minha invejável liberdade
Nada me convence do óbvio que trago em meu peito, pois tantas vidas que terei as gastarei em atropelamentos, barroadas e capotadas, mas me recusarei a deixar de sentir

Roberta Moura